segunda-feira, 2 de abril de 2012

Leitura 13 - Dia Internacional da Literatura infantil - 02/abril

     Dia da Literatura Infantil, vontade de comemorar com um conto especial, o mais lindo e representativo entre tantos. Mas como selecionar apenas um? Talvez a melhor homenagem seja lembrar de um de seus responsáveis por gratas memórias de infancia de tantos de nós, adultos; de futuras lembranças dos pequenos que aí estão, e de outros que vêm chegando para desbravar este nosso mundo que é rico, enquanto muitas vezes tão difícil, que só o olhar da magia, do sonho e do encantamento nos faz tolerar. Vai aqui não apenas uma leitura, mas um pouco da história daquele que tanto fez pela Literatura, que teve a data de seu nascimento definida também como o marco inicial do que hoje entendemos por Literatura Infantil

Poeta e escritor dinamarquês / Hans Christian Andersen
02/04/1805, Odense, Dinamarca
04/08/1875, Copenhague, Dinamarca
Da Página 3 Pedagogia & Comunicação
[creditofoto]
                                           A infância pobre de Andersen influenciou marcadamente sua literatura

[creditofoto]     Hans Christian Andersen era filho de um sapateiro e sua família morava num único quarto. Apesar das dificuldades, ele aprendeu a ler desde muito cedo e adorava ouvir histórias.
     A infância pobre deu a Andersen a chance de conhecer os contrastes de sua sociedade, o que influenciou bastante as histórias infantis e adultas que viria a escrever. Em 1816, seu pai morreu e ele, com apenas 11 anos, precisou abandonar a escola, mas já demonstrava aptidão para o teatro e a literatura.
     Aos 14 anos, Andersen foi para Copenhague, onde conheceu o diretor do Teatro Real, Jonas Collin. Andersen trabalhou como ator e bailarino, além de escrever algumas peças. Em 1828, entrou na Universidade de Copenhague e já publicava diversos livros, mas só alcançou o reconhecimento internacional em 1835, quando lançou o romance "O Improvisador".
     Apesar de ter escrito romances adultos, livros de poesia e relatos de viagens, foram os contos infantis que tornaram Hans Christian Andersen famoso. Até então, eram raros livros voltados especificamente para crianças. Em suas histórias, Andersen buscava sempre passar padrões de comportamento que deveriam ser adotados pela sociedade, mostrando inclusive os confrontos entre poderosos e desprotegidos, fortes e fracos. Ele buscava demonstrar que todos os homens deveriam ter direitos iguais.
     Entre 1835 e 1842, Andersen lançou seis volumes de "Contos" para crianças. E continuou escrevendo contos infantis até 1872, chegando à marca de 156 histórias. No final de 1872, ficou muito doente e permaneceu com a saúde abalada até 4 de agosto de 1875, quando faleceu, em Copenhague.
     Graças à sua contribuição para a literatura para a infância e adolescência, a data de seu nascimento, 2 de abril, é hoje o Dia Internacional do Livro Infanto-Juvenil. Além disso, o mais importante prêmio internacional do gênero leva seu nome.  Anualmente, a International Board on Books for Young People (IBBY) oferece a Medalha Hans Christian Andersen para os maiores nomes da literatura infanto-juvenil. A primeira representante brasileira a ganhá-la foi Lygia Bojunga, em 1982.
     Entre os títulos mais divulgados da obra de Andersen encontram-se: "O patinho feio", "O soldadinho de chumbo", "A roupa nova do Imperador", "A pequena sereia" e "A Menina dos Fósforos". São textos que fazem parte do imaginário da maioria das crianças do mundo desde sua publicação até a atualidade, tendo sido adaptados para o cinema, o teatro, a televisão, o desenho animado etc.
Fonte: http://educacao.uol.com.br/biografias/hans-christian-andersen.jhtm

sexta-feira, 9 de março de 2012

Poesia 1 - Lupe Cotrim (1933-1970)

Mês de março, ontem 8, dia da Mulher, homenagens, comemorações. Para falar da Mulher, nada melhor do que retratar a alma de poetas como Lupe Cotrim, morta prematuramente, absolutamente clara e intensa ao descrever o Amor.

I
- Em mim sonhas um mar, um horizonte
murmuravas. - Ao ver-me rio e vento
sabes que ao ser apenas lago e fonte
és imóvel, e sou teu movimento.
E sonhei mais. Que em volta do teu rio
fosse eu contorno e no teu vento eu fosse a
a flexivel resposta de um navio
saciando essa procura que te trouxe.
E sonhei mais ainda pois sonhei
também que me sonhavas. Descobri
que nem mesmo sonhaste o que te amei.
  Na manhã do teu rio em que me apago
ficaram, desse sonho onde vivi,
                                         as águas tristes que não foram lago.

                              II
                              Que o amor assim perdido se conforme
                              e renasça na forma de outro amor,
                              embora sem ser meu. Que se transforme
                              num sorriso distante desta dor.
                                Que as mãos assim crispadas pelo sonho,
                              repousem finalmente na verdade
                              aceita e compreendida em que disponho
                              os limites da estreita realidade.
                              Que o rumo onde te amava e me perdia
                              em tristeza tão grande não incorra
                              sobrevivendo a altura em que eu vivia.
                              Que poesia e não lágrimas escorra
                              dos meus olhos. No sonho já desperto
                              seja água a responder ao teu deserto.

                               III
                              Pouco sabeis de mim. Hoje percebo
                              que o segredo mais puro do que sou
                              vos é desconhecido. É um arremedo
                              apenas do que sinto o que vos dou.
                              Se é receio vos largar o coração,
                                talvez eu tema. Sei o que é silêncio,
                              a mágoa de compor a solidão
                              uma outra vez. E sei que não convenço
                              vossa distância em minha entrega. Perto
                              ou longe, sois limite próprio. Surda
                              é em vós essa paixão em que desperto
                              um arrepio que vossa paz perturba.
                              E intensa me contenho e mais não faço
                              para atrair-vos ao céu que vos disfarço.

                              IV
                              Tudo acabou, bem sei, mas não importa.
                              Não é só de futuro que amor vive.
                               O tempo em que se amou não mais se corta
                              de nós; ainda sou muito do que tive.
                              Nessa entrega também me pertenci.
                              Tive dois corpos, duas almas, em braços
                              mais longos envolvi o mundo. Nasci
                              de nós, por isso levo-te em meus traços.
                              Não pesa que a verdade foi momento,
                              a presença tão breve e o desconexo
                              desse sonho. Restou-me o sentimento
                              em que de novo te surpreendo em mim.
                              E o que foi belo, imóvel num reflexo
                               me enriqueceu de haver amado assim. 
                                "Amar de amor, amor de amar VI", Entre a flor e o tempo, 1961

quinta-feira, 8 de março de 2012

Leitura 16 - "Ouvindo" livros

     Recebo uma carta carinhosa de uma leitora, aluna do Fundamental, que teve como indicação de leitura o meu livro "Um gosto de quero mais", da FTD. A primeira edição do livro é de 1994 e, na época, muito embora os professores sugerissem que temas como a gravidez precoce fossem abordados na literatura juvenil, a adoção era ainda um tanto controversa.  Quando os educadores sentiam que o momento era propício, muitas vezes, os pais se mostravam reticentes: "Por que atiçar a curiosidade dos alunos?" Uma preocupação compreensível, mas que, já se pressentia, por pouco tempo seria contornada.
     Aos poucos, o livro foi ganhando espaço, abrindo caminho junto a tantos outros títulos e temas, promovendo importantes discussões em salas de aula que, bem conduzidas, produzem resultados excelentes. Em 2001, o livro foi atualizado, ganhou nova capa, diagramação e fôlego e já se vão 20 anos de estrada. É ainda um livro jovem que fala ao leitor jovem com algum conhecimento de causa. E, ao falar, é ouvido. Sim, pois como bem dizia Bartolomeu Campos de Queiroz: "ler é também escutar". No intenso diálogo que se estabelece entre autor, texto e leitor, há uma troca única e exclusiva.
     Mas, voltando à carta da minha leitora (uma carta com caligrafia trêmula), ela assim começava: "Querida Sonia, graças ao seu livro deixei de fazer uma bobagem". Na sequência, ela me relatava seu amor adolescente, pleno de contradições - por ser maravilhoso, intenso e proibido - e da sua preocupação com a insistência de seu namorado em iniciar um relacionamento mais íntimo, já que o amor, o verdadeiro amor, tudo permite, tudo quer, tudo pode. Ela não deixou claro se a "bobagem" a que se referia era dar início à vida sexual ou se - já ultrapassada esta dúvida - era interromper uma gravidez não desejada.
     Para quem não conhece o livro, ele fala sobre as inquietações de uma adolescente chamada Cely diante da gravidez de sua melhor amiga, também adolescente, Darlene. Permeando a  narrativa com trechos do diário de Cely, descobrimos o que acontece em seu íntimo, o quanto de conflito e de incerteza a condição da amiga lhe provoca. Cely é a protagonista, mas quem está grávida é a outra, para que o leitor possa - em cumplicidade - partilhar medos e descobertas de Cely, que também se modifica, ainda que protegida por sua condição de espectadora: ela vive com Darlene uma história solidária e paralela cujas consequências não a atingem (não?).
     Cumplicidade foi o que levou minha leitora, possivelmente sem ter outra opção, a recorrer a mim: "graças ao seu livro deixei de fazer uma bobagem... "
     Por um bom tempo, até poder lhe responder com minha humilde condição de mãe, mulher - em algum canto de mim ainda adolescente - eu me detive na palavra bobagem. Bobagem sexo? Bobagem filho? Bobagem aborto? E escrevi com o cuidado e a delicadeza de quem tem em mãos um pássaro ferido. Hoje, porém, ouço a voz do grande escritor, e me dou conta da força contida no que escrevemos/dizemos.  E o que mais me  impressiona na carta da menina é: "graças ao seu livro..."

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Ilustração 7 - Gilberto Marchi

Intertextualidade
Quando falamos em intertextualidade - definindo sucintamente: a correspondência entre dois textos - , lembramos imediatamente do texto escrito. Especialmente na literatura, um texto que remete a outro ou a uma ideia já consagrada e que aparece renovada, revestida, revisitada, enfim. Porém, ideias revisitadas estão presentes o tempo todo em nossa vida cotidiana. Pouco do que vemos ou dizemos é inteiramente original. Melhor dizendo, nada é original já que nossa visão de mundo está sempre apoiada numa premissa anterior. Este é um assunto vasto e empolgante.

Mas se não é original, também não se pode dizer que tudo se copia ... (lembram da frase?). Em se tratando de arte, bebe-se de inúmeras fontes, mas há uma alquimia única, particular, em cada obra,  quando a alma do artista ali se faz presente.

Não há que se falar muito, melhor dar um exemplo. Um belo exemplo...  Levando-se em conta que as imagens falam de um modo mais direto com o outro -  a partir de um olhar relâmpago a comunicação se faz de modo quase irreversível - vamos deixar que este lindo trabalho de Gilberto Marchi nos explique o que é criar, o que é intertexto. Alguém diria não haver aqui algo absolutamente novo?

A imagem fala por si.   

Monanelore - G. Marchi

Fonte: http://gilbertomarchi.blogspot.com/2009/09/ilustracao-monanelore.html

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Leitura 12 - Profissão dona de mim

Profissão dona de mim - FTD Editora

Viver em família é complicado! Ainda mais quando a família entra em crise! E, pior ainda, quando quem está em crise não é um filho, mas a mãe. Como entender? Como ajudar? Como conviver com alguém que se descobre insatisfeita com a vida de dona de casa e quer mudar de qualquer jeito? Entre papos sérios e outros divertidos, a familia inteira se mobiliza para achar a solução! 

trecho - pag.46-52
Conhecendo o diagnóstico.
Um dia a Simone entrou no apartamento comunicando:
- A Teca teve a maior discussão com a mãe dela, hoje. Disse que ela está uma chata.
- E o que é que nós temos a ver com isso? - logo fui cortando o papo dela.
- Nada. Só estou falando pra mamãe saber que não é só ela que anda chata, quer dizer, anda assim com problemas - a Simone logo corrigiu, pois a mamãe estava ouvindo tudo da cozinha. E ainda reforçou:
- Acho bom a mamãe saber que não é só ela que está passando por essa crise dos quarenta.
- Crise dos quarenta? - minha mãe apareceu na sala sem notar que eu e a Silvia estávamos prestes a agarrar o pescoço da Simone. - Quem disse para você que eu estou na crise dos quarenta, Simone?
- A Silvia - ela dedurou, achando que estava dando crédito para a irmã mais velha. - Ela descobriu rapidinho assim que nós contamos para ela sobre os seus chiliques.
- Chiliques! -  mamãe falou, pondo as mãos na cintura. - Ainda mais essa! Eu estou tendo chiliques!
Surpresa, ela sentou no braço do sofá, olhou bem para nós e perguntou:
- Vocês podem me explicar direitinho o que está acontecendo? Se entendi direito, vocês se reuniram para analisar os meus chiliques e a doutora Silvia já deu o seu diagnóstico: crise dos quarenta. Muito bom eu saber disso.
- Sabe o que é, mãe - a Silvia começou a explicar. - Nós ficamos preocupados com você. Você anda meio abatida, triste. Não foi isso, César? - ela perguntou, como quem pede socorro.
- Claro! Foi sem a menor maldade, mãe. só pensamos em ajudar - socorri.
- Pois então saibam de uma coisa - minha mãe falou. - O que eu tenho não é crise dos quarenta coisíssima nenhuma. Não estou me sentindo velha.
- Eu achei que era isso porque todas as pessoas da sua idade começam a se preocupar com uma porção de coisas que antes não perturbava - falou a Silvia. - Todo mundo comenta isso!
...
- Pode ser que mais tarde eu também venha a ter essa crise, não sei - minha mãe continuou. - Talvez também não seja fácil perceber que o físico está murchando, mas por enquanto eu ainda me sinto muito bem. O problema é outro, completamente diferente.
- Então explique, mãe - a Silvia pediu -, ou pelo menos tente, porque eu ainda não saquei direito.
- É difícil explicar - mamãe falou. - É assim como uma coisa que falta. Um buraco vazio. Como se eu não tivesse realizado nada esse tempo todo.
- Mas, mãe! Como não realizou nada? Você já fez tanta coisa! - a Silvia surpreendeu-se.
- Tanta coisa que eu não consigo apalpar - minha mãe retrucou. - Não existe nada concreto que eu possa dizer: "isso aqui foi feito por mim."
- Essa é muito boa! Nós fomos feitos por você - brincou a Simone. E podemos ser apalpados.
- Eu sei, querida - a mamãe esboçou um sorriso. - Esse lado está preenchido, realizado e não me arrependo de nada. Porém ficou um outro lado completamente inútil.
- Você quer dizer um lado profissional? - perguntei.
- Também, filho. Um lado onde você possa ver um resultado concreto. Um lado que te dê satisfação, orgulho. Algo que você tenha conquistado.
- Mas, mãe - falou Silvia -, me diz uma coisa: o que você conquista com o trabalho além de um pouco de dinheiro?
- Muita coisa, filha. O trabalho dá uma sensação de utilidade, de produção... Acho que é isso. Eu não me sinto produtiva.
...
Minha mãe continuou procurando a tal coisa que estava faltando e pareceu mais calma ou, pelo menos, fingiu estar. Uma vez ou outra conversava numa boa e parecia estar lendo bastante também. Ela tinha sacado que teria que se ajudar sozinha. Só mesmo ela poderia chegar à conclusão do que estava faltando. Mamãe só não percebia que, de um jeito ou de outro, esse assunto sempre vinha à baila. Até nas brincadeiras, nas frases irônicas que a gente diz quando está contrariado com alguèm. Sempre era dita alguma coisa como: "É só para isso que eu sirvo, mesmo"; "Ninguém respeita o meu espaço". Esse tal de espaço que todos aconselhavam a mamãe  a procurar e ela não encontrava. Tudo isso estava nos dando um tremendo trabalho.

  

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Ilustração 6 - Arthur Rackham (1867-1939)

Sempre vale apreciar o talento de um artista. As imagens (uma pequena amostra) dispensam comentários.

A Fairy



King of golden river



   Alice in Wonderland (by Lewis Carroll)



Fair Helena

Leitura 11 - Meu destino sou eu

Meu destino sou eu
Editora FTD
Trecho - Capítulo X - pags. 35/36

Pai e filho se encontraram na porta de casa.
- Não tem ninguém - Pedro avisou. E eu estou sem a chave.
- Como não tem ninguém? - irritou-se o pai, já colocando a chave na porta. - Onde se enfiou a sua mãe?
- Deve estar na loja. Ela costuma chegar um pouco mais tarde - disse Pedro, consultando o relógio. - Você é que chegou cedo.
- É. Quis fazer uma surpresa e fui surpreendido - reclamou o pai, enquanto entrava e ia direto discar para a loja.
- Clara? Sara? Avisa a sua mãe que eu já estou em casa.
Júlio desligou o telefone, zangado. Nem sombra da satisfação estampada no rosto quando tudo corria conforme seus planos. Algo tinha saído da rota.
Após uns quinze minutos, depois de terem fechado a loja apressadas e descido ladeira abaixo praticamente correndo, Sara, Clara e Edna entraram em casa. Elas bem sabiam o quanto Júlio desaprovava a loja e os transtornos provocados por ela em sua vida.
- Oi, querido. - Edna foi logo beijar o seu rosto.
- Oi - respondeu ele, lacônico e recebendo indiferente também os beijos das filhas.
- Chegou cedo hoje! - comentou Edna, guardando a bolsa.
- E você, tarde - respondeu ele.
- Tarde? Mas este é o meu horário! - ela estranhou.
- Que horário? - disse ele. - Você fecha a loja na hora que quiser.
- Pois então - ela o enfrentou. - Esta é a hora que eu quero.
- Já vão começar... - Sara falou baixinho para Clara.
- Você sabe que destesto não te encontrar em casa quando chego, Edna - Júlio protestou.
- Então me arranje uma bola de cristal pra eu poder adivinhar quando você vai chegar mais cedo. Certo? Eu estava trabalhando, sabia? Tra-ba-lhan-do.
- Sem precisar - emendou Júlio.
- Você implica com o meu trabalho, Júlio. E, pior, só lembra de mim quando eu não estou  em casa. Sou notada pela ausência!
E, dizendo isso, Edna correu para o quarto e se trancou. Júlio pareceu não se importar. Esta cena era reprise de muitas outras. então, voltou-se para o filho.
- Campeão, já vi que não sai janta hoje. Quer ir comigo numa lanchonete?
- Acho que não, pai. Eu estou uma fera hoje.
- É mesmo? Então vamos juntos nos consolar. Você me conta o que aconteceu pelo caminho. Vem, campeão - insistiu Júlio.
Júlio passou o braço pelo ombro do filho e, voltando-se para Clara e Sara, que, mudas, assistiam a eterna discussão, disse:
- Vocês duas façam companhia para a sua mãe.
Logo em seguida, Sara e Clara puderam ouvir os dois conversando do outro lado da porta:
- E elas vão comer o quê, pai?
- Elas se viram na cozinha, campeão... São mulheres...
(cap. XI - pag. 39)
...
Pouco tempo depois, Júlio e Pedro voltaram.
Arrependido, Júlio chamou Edna para o quarto para conversar. Sara já sabia o fim da história. Tinha assistido a essa cena inúmeras vezes. Ele pediria desculpas, assumiria que tinha exagerado na sua reação, no seu ciúme, na sua sensação de posse, na sua autoridade. Edna, ainda aborrecida, o perdoaria, e os dias passariam tranquilos até que algo parecido acontecesse outra vez...
Naquela noite, Sara custou a pegar no sono. Ficou relembrando várias passagens da sua infância. Nelas, invariavelmente, seu pai aparecia como aquele que roubava dela e da irmã toda a possibilidade de voo, toda a sensação de liberdade, de ser capaz.