terça-feira, 11 de outubro de 2011

Ilustração 6 - Arthur Rackham (1867-1939)

Sempre vale apreciar o talento de um artista. As imagens (uma pequena amostra) dispensam comentários.

A Fairy



King of golden river



   Alice in Wonderland (by Lewis Carroll)



Fair Helena

Leitura 11 - Meu destino sou eu

Meu destino sou eu
Editora FTD
Trecho - Capítulo X - pags. 35/36

Pai e filho se encontraram na porta de casa.
- Não tem ninguém - Pedro avisou. E eu estou sem a chave.
- Como não tem ninguém? - irritou-se o pai, já colocando a chave na porta. - Onde se enfiou a sua mãe?
- Deve estar na loja. Ela costuma chegar um pouco mais tarde - disse Pedro, consultando o relógio. - Você é que chegou cedo.
- É. Quis fazer uma surpresa e fui surpreendido - reclamou o pai, enquanto entrava e ia direto discar para a loja.
- Clara? Sara? Avisa a sua mãe que eu já estou em casa.
Júlio desligou o telefone, zangado. Nem sombra da satisfação estampada no rosto quando tudo corria conforme seus planos. Algo tinha saído da rota.
Após uns quinze minutos, depois de terem fechado a loja apressadas e descido ladeira abaixo praticamente correndo, Sara, Clara e Edna entraram em casa. Elas bem sabiam o quanto Júlio desaprovava a loja e os transtornos provocados por ela em sua vida.
- Oi, querido. - Edna foi logo beijar o seu rosto.
- Oi - respondeu ele, lacônico e recebendo indiferente também os beijos das filhas.
- Chegou cedo hoje! - comentou Edna, guardando a bolsa.
- E você, tarde - respondeu ele.
- Tarde? Mas este é o meu horário! - ela estranhou.
- Que horário? - disse ele. - Você fecha a loja na hora que quiser.
- Pois então - ela o enfrentou. - Esta é a hora que eu quero.
- Já vão começar... - Sara falou baixinho para Clara.
- Você sabe que destesto não te encontrar em casa quando chego, Edna - Júlio protestou.
- Então me arranje uma bola de cristal pra eu poder adivinhar quando você vai chegar mais cedo. Certo? Eu estava trabalhando, sabia? Tra-ba-lhan-do.
- Sem precisar - emendou Júlio.
- Você implica com o meu trabalho, Júlio. E, pior, só lembra de mim quando eu não estou  em casa. Sou notada pela ausência!
E, dizendo isso, Edna correu para o quarto e se trancou. Júlio pareceu não se importar. Esta cena era reprise de muitas outras. então, voltou-se para o filho.
- Campeão, já vi que não sai janta hoje. Quer ir comigo numa lanchonete?
- Acho que não, pai. Eu estou uma fera hoje.
- É mesmo? Então vamos juntos nos consolar. Você me conta o que aconteceu pelo caminho. Vem, campeão - insistiu Júlio.
Júlio passou o braço pelo ombro do filho e, voltando-se para Clara e Sara, que, mudas, assistiam a eterna discussão, disse:
- Vocês duas façam companhia para a sua mãe.
Logo em seguida, Sara e Clara puderam ouvir os dois conversando do outro lado da porta:
- E elas vão comer o quê, pai?
- Elas se viram na cozinha, campeão... São mulheres...
(cap. XI - pag. 39)
...
Pouco tempo depois, Júlio e Pedro voltaram.
Arrependido, Júlio chamou Edna para o quarto para conversar. Sara já sabia o fim da história. Tinha assistido a essa cena inúmeras vezes. Ele pediria desculpas, assumiria que tinha exagerado na sua reação, no seu ciúme, na sua sensação de posse, na sua autoridade. Edna, ainda aborrecida, o perdoaria, e os dias passariam tranquilos até que algo parecido acontecesse outra vez...
Naquela noite, Sara custou a pegar no sono. Ficou relembrando várias passagens da sua infância. Nelas, invariavelmente, seu pai aparecia como aquele que roubava dela e da irmã toda a possibilidade de voo, toda a sensação de liberdade, de ser capaz.

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Leitura 10 - Acorda que a corda é bamba!

Acorda que a corda é bamba! - um grito de alerta para as drogas
Editora Aquariana / DeLeitura
Trecho: pags.77-79


...
    Lúcio improvisara um cachimbo para fumar a pedra. Tinha visto na revista. Uma latinha, uma tampinha qualquer, um canudo... Tão fácil! Depois, era botar a pedra, acender e pronto. Emoção forte nas pontas dos dedos. Liberdade, euforia. Devia ser melhor do que cheirar. Diziam que era mais forte.
    De repente, assustou-se com o barulho da porta:
- LÚCIO! ABRA ESTA PORTA! - era o pai, enérgico.
- Tô acordando, pai.
- Vem tomar café, Lúcio. Quero que você vá à praia com seus colegas hoje.
- Vai indo, pai. Depois eu vou.
- Abra esta porta. Quero falar com você.
- Me deixa quieto, pai. Eu vou depois. - Lúcio tentou ganhar tempo enquanto escondia o cachimbo debaixo das cobertas.
- Abra esta porta, filho! - o pai repetiu com a voz mais zangada.
   Lúcio abriu e voltou a atirar-se na cama. Preparou-se para o longo sermão.
- O que você está pretendendo com este comportamento arredio, filho? - o pai foi logo dizendo. - O que está pretendendo? Quer que todo mundo fique perguntando o que há com você? Quer chamar atenção?
- Claro que não, pai. Onte eu saí com eles.
- Durante uma hora, se tanto! - o pai lembrou. - Antes queria varar a noite com eles. Agora passa o dia trancado neste quarto. que raio de férias você está querendo ter? Quer me deixar maluco, Lúcio?
   Silêncio. Lúcio encolheu-se na cama e encarou o pai.
- Vá já tomar o seu café e vá para a praia conosco. Estou esperando - o pai ordenou.
- Vai indo na frente, pai. Eu vou logo atrás.
- Acho bom ir mesmo, Lúcio. Acho bom - Artur falou, afastando-se dali.
   Lúcio voltou a trancar a porta. Pretendia mesmo obedecer o pai para evitar encrencas maiores, no entanto não cabia em si de curiosidade. Abriu a gaveta de roupas e tateou em busca da pequena pedra. Pegou de mal jeito e ela caiu no chão. A inquietação inicial virou  desespero. Lúcio deitou-se no chão e rastejou sobre o tapete apalpando cada canto até encontrá-la. Segurou a pedra firme entre os dedos, alcançou o cachimbo por entre as cobertas da cama e o acendeu.
   Fumou a pedra repetindo os mesmos gestos vistos tantas e tantas vezes na televisão, nas revistas, nas ruas...
   Fechou os olhos e esperou que o mistério fosse desvendado, que o milagre acontecesse.
   Fumou a pedra com tragadas intermitentes e a cada inalação sentia o mundo inteiro vibrando intensamente dentro de si.
   O quarto virou paraíso, era o mundo medido em metros quadrados. Tudo estava sob seu único e exclusivo controle. Lúcio era feliz... Era incrível, indescritível, insuperável! ... Por que não te conheci antes, pedrinha? Por que não te busquei primeiro? Por que não me deixa feliz o tempo inteiro? 


(*)O livro foi matéria do programa “Imprensa e Comunicação em Debate”, Rádio Bandeirantes (AM).
A história tem base em fatos verídicos extraídos de cursos e pesquisas realizados  junto ao DENARC e a profissionais da área médica, especialistas em drogadependência, no tratamento e acompanhamento do usuário e de suas famílias. Ao propor duas alternativas de desfecho, o livro leva o leitor a considerar outras consequências possíveis, estabelecendo paralelos entre ficção e realidade.

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Artigo 2 - Um gosto de quero mais



Sonia Maria Dornellas Morelli
Regina Marta Fonseca Gonçalves
Carmem Sidneia Bonfanti da Silva
Simone Léa Marques Barreto

 

ANÁLISE LITERÁRIA

RESUMO:  O objetivo deste trabalho é apresentar alguns recursos inovadores utilizados na Literatura Infanto-Juvenil. Para a realização das idéias, tomamos como base a obra Um Gosto de Quero-Mais de Sonia Salerno Forjaz que tem como tema a gravidez na adolescência. Alguns aspectos foram analisados mediante teorias críticas de vários estudiosos. O ambiente familiar é analisado sob duas vertentes: em uma aparece a família aberta para o diálogo, em outra os pais têm idéias conservadoras. A busca da identidade é bem colocada pela autora. Apresenta também uma análise da interferência da Cultura de Massa, nessa literatura. A estética da obra, bem como o vocabulário típico dos adolescentes e as ilustrações, as mais variadas possíveis são criteriosamente observadas. Como o grande enfoque do trabalho é a Industria Cultural, correlacionando todos os aspectos analisados, acreditamos que este colabora trazendo formas novas para despertar a curiosidade dos alunos.
PALAVRAS-CHAVE: Literatura Infanto-Juvenil, Industria Cultural, inovações.

Leitura 9 - Um gosto de quero mais

                              Trecho - pag. 25


Darlene revela uma paixão 
- Seus pais são uns amores! – comentou Darlene enquanto se enfiava sob as cobertas da bicama.
- Eu acho – respondi. – Sou suspeita, mas acho que eles são demais.
...
- ... Se eu falasse com meu pai do mesmo jeito que você, levava a maior bronca e até podia ganhar uns tapas. Meu pai é muito autoritário.
...
Imagine então se ele descobre... Não quero nem pensar.
- Descobre o quê? Conta... O quê?
- Você jura não contar pra ninguém?
- Pra que jurar, Darlene? Desembucha!
- Só se você jurar. Eu estou louca pra te contar, mas ninguém mais pode saber. Você jura?
- Ta legal. Juro, vai.
...
- Eu e o Beto... estamos namorando... Você nem desconfiava?
- UAU!!! Namorando de verdade? Nem desconfiava. Bom... vai... francamente, desconfiava, mas pensei que você não tivesse coragem. Conta, conta. Conta mais.
....
- ... Desde quando vocês estão namorando?
- Desde aquele passeio na escola, no planetário. Tem três semanas. No planetário, imagina, foi logo pegando na minha mão.
- E daí?
- E daí que eu vi estrelas...
- Novidade, Darlene! E você queria ver o que no planetário?
...
- Vocês já se beijaram?
- Já. Aí sim que o calafrio fica melhor...
- Como é? Conta! Fala tudo! – enquanto eu perguntava, ia me agitando toda. Acabei pulando pra a bicama da Darlene.
- É bom, uai! Como vou te explicar... é delicioso.
...
- Você já beijou, por acaso, Cely?
- Não. Mas basta o Carlos me encarar daquele jeito, olho no olho, e pronto. Já sinto um troço. Se eu ficar imaginando um beijo, então...
- Pois se ele te beijar de verdade, você vai multiplicar este troço por milhões de outros troços.
- Acho que eu desmaio! – Fiz a cena caindo para trás na cama.
- Eu morro! É incrível!
- Mas, Darlene! Me conta uma coisa. A que horas vocês namoram, se o teu pai não te dá uma folguinha?
...
- Nem brinca, menina. Às vezes eu fico pensando se meu coração dispara por causa do Beto ou por medo do meu pai chegar de repente...
- Ah! Só falta descobrir que seu calafrio é de medo. Morro de rir com seu grande namoro!
- Claro que não é, sua boba! Você tem é inveja porque não namora.
- Inveja, eu? Você é muito mais velha do que eu! Tem mesmo que namorar primeiro.
- Muito mais velha, não, sua despeitada. Só seis meses. Você bem que queria estar no meu lugar.
- Eu??? Você está maluca? Eu ia lá querer beijar aquele cara horrível?
Ele não é horrível. Se você olhar bem, até que ele é engraçadinho...
- Bom. Quem ama o feio...
- E o Carlos por acaso é bonito? Aquele espinhudo?
- Espinhudo? Ele só tem uma espinha, coitado! E ele é lindo com espinha e tudo.
- Na ponta do nariz? Tem coragem de dizer que com aquela espinha na ponta do nariz ele é bonito?
- Tenho. É e pronto. Assunto encerrado. Fica você com o seu magricela e não mexe com meu amado.
- Não falei que você ficou com ciúme? Por que não confessa? Vamos! Ficou toda nervosa...
- Nervosa uma ova! Estou é com sono. Chega de papo.
E, dizendo isso, apaguei a luz..

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Artigo 1 - Papai não é Perfeito - (a inclusão social e o deficiente)

COM A PALAVRA “PAPAI NÃO É PERFEITO”
Este livro tem como tema a deficiência física e o preconceito que a envolve. Pertence à coleção “Recomeço” da editora FTD. Esta coleção foi criada para abordar assuntos como a deficiência física e o preconceito a que essas pessoas são obrigadas a aceitar para poder conviver em nossa sociedade. A autora, Sonia Salerno Forjaz, mostra em “Papai não é perfeito” como as pessoas deficientes enfrentam esses problemas dia a dia em um mundo que não foi feito para servi-las ou para acolhê-las. Forjaz conta a história de um menino que sabe que seu pai era diferente. Ao narrar a deficiência do pai e a maneira como ele encara a vida e as dificuldades, o leitor vai pouco a pouco entendendo melhor o mundo dessas pessoas e aprendendo a respeitá-las.
Na verdade o deficiente quer o direito a igualdade. Não o direito de ser igual, mas a possibilidade de, sendo diferente, ter acesso aos mesmos direitos. Ter respeitada sua diversidade, o conteúdo da sua competência e não a medida da sua eficiência, ter a marca do humano sobressaindo como possibilidade de sua diversidade.
De acordo com a sinopse..., um trabalho escolar levou Lucas a se perguntar se seu pai, portador de deficiência física, hemiplegia, podia ou não ser considerado herói. Se herói fosse a pessoa de porte atlético, fisicamente perfeito, seu pai não se enquadraria nessa categoria... Depois de muitas conversas com a mãe e a irmã, rememorando a história de vida do pai, percebeu que era capaz de conceituar o que é ser herói: pessoa que tem consciência de seus limites, que luta para superá-los e que consegue ser produtivo e feliz, apesar de fisicamente diferente das outras. Seu pai era uma pessoa assim; portanto, um herói.
É esse tipo de conceito sobre deficiência que precisamos, enquanto educadores e cidadãos, passar a nossas crianças e jovens, que a palavra Deficiente, que dá nome a uma pessoa com certas limitações para determinadas tarefas, não pode e nem deve ser empregado como sinônimo de incapaz. Rotular pessoas por aquilo que aparentam ser é pura ignorância... A ignorância é comparável a uma epidemia que dissipa povos inteiros e leva ao caos. Contudo, sua área de atuação é a alma humana e a cura é o conhecimento e a aceitação. Cabe ao professor mudar esse paradigma ao indicar livros como esse “Papai não é perfeito” para incutir a idéia de que o diferente pode ser igual (ou quase), discutir o tema, promover a Inclusão Social e desmistificar esse preconceito contra o aluno, enquanto ser humano, com necessidades educacionais especiais.

Cada pessoa tem um jeito que é só seu e isso deve ser respeitado. Meu jeito é de pensador [...]. Minha mãe é sonhadora [...]. Minha irmã é estudiosa, além, é claro, de todos nós sermos muitas, muitas outras coisas. Papai... bem, este não dá pra dizer assim de repente. Ele é um sujeito especial (FORJAZ, 1998, p.05).

A autora faz toda uma preparação explicando e qualificando cada um dos personagens antes de chegar à descrição do portador de necessidades especiais porque ela sabe que a palavra “deficiente” é impactante, traz à tona certo preconceito, por isso Sonia quer que a primeira impressão seja positiva ao invés de seu oposto. Isso tudo tem o intuito de não desqualificá-lo ou torná-lo digno de pena, mas mostrar que por traz da deficiência há um ser humano que se esforça mais ainda por suprir a sua limitação.
“O Bruno vive falando mil maravilhas sobre o pai dele [...] o mais elegante, o mais bonito, o mais rico... [...] mas daí a ser herói, acho que vai uma grande distância” (FORJAZ, 1998, p. 07).
Neste caso, também é a aparência que conta. Porém como diz o ditado popular “quem vê cara não vê coração” não é a aparência e posição social que fazem o caráter de uma pessoa, suas qualidades. Toda pessoa tem defeitos, mas são as qualidades que amenizam estes defeitos. Só depende da visão do outro com relação a você.
Ser herói para alguém que goza de plena saúde, condição financeira estável, considerável círculo de amizade é fácil, aliás, estas não são condições para tornar alguém herói. Na definição de Bueno “Homem extraordinário pelas suas proezas guerreiras, pelo seu valor ou magnanimidade” (1996, p. 340) a segunda definição se encaixa perfeitamente em nosso personagem, todavia Lucas não conseguia enxergar o herói que havia em seu pai “Precisava mesmo aparecer um trabalho de escola para me fazer enxergar o meu próprio pai!” (p. 08)...   (grifamos)

Leia  mais
Fonte:  
A LITERATURA INFANTO-JUVENIL E A DEFICIÊNCIA FÍSICA NA OBRA “PAPAI NÃO É PERFEITO”
Edilaine Vagula, Tereza Cristina Ribeiro Magron Bataglia

Leitura 8 - Espelhos Partidos - um conto sem fadas (trecho).

       

Parte I - Capítulo 4.
 Naquela tarde, fomos a um parque num dos pontos mais altos da cidade, de onde se via uma paisagem linda. Poucas pessoas passavam por ali àquela hora da tarde, num dia de semana. O mundo continuava apressado e cheio de problemas, mas eu e meu amado estávamos ali, sentados na grama, pairando nas nuvens, acima de todos, trocando juras e fazendo planos.
-       - Um dia, nós vamos nos casar – ele disse, de repente.
-       - Julinho! – falei com o coração aos pulos. - A gente mal se conhece e você já está falando assim? Não sabemos nada um do outro!
-       - E precisa saber mais do que o que nós sentimos? 
-       - Mas assim você me assusta.
-       - Minha criança! – ele falou me abraçando. – Assustei você. Claro que não vamos nos casar agora, Flavinha. Mas, um dia, eu tenho certeza, você será a minha mulher.
       - Como pode ter tanta certeza? – perguntei, sentindo um misto de mágoa por ser chamada de criança e de alegria por ele cogitar que eu pudesse ser sua mulher.
-   Eu sinto isso, Flavinha. Aqui dentro – ele disse, pondo a minha mão sobre o seu  peito.
Nosso encontro foi mágico, inesquecível. Julinho era calmo e carinhoso. As horas passaram ligeiras e começava a escurecer quando ele se ofereceu para me levar para casa e embora eu não quisesse voltar, sorri para ele me sentindo a pessoa mais feliz sobre a face da Terra. O vento batia no meu rosto e a paisagem era um misto de rosa e azul, com o sol se pondo ao longe. Parecia uma pintura, um quadro, mas um quadro do qual a minha vida fazia parte. A minha e a dele, de mais ninguém.
                         Definitivamente, eu amava Julinho. Amava sua figura, seus gestos, sua roupa, seu carro, seu cheiro, o cheiro do seu carro, sua voz e tudo o que pudesse estar ligado a ele. Eu era capaz de amar os objetos que ele tocava, pois tudo, perto dele, assumia um poder transformador. Estava namorando o homem mais maravilhoso do mundo e as coisas só não eram mais perfeitas porque eu não podia sair contando isso para todos, aos berros, aos gritos, na maior euforia!
-      Chegamos, neném – ele falou, encostando o carro numa esquina cerca de duas quadras antes de chegarmos ao meu prédio.
-       Neném? – falei, sentida.
-       Não gosta?
-       Não.
-       Como prefere que eu chame você? Flávia, Flavinha?
-       Flavinha, como fez a tarde inteira – pedi.
-       Flavinha e Julinho? – ele falou,  rindo de mim.
-       Só se você quiser... – me apressei em não contrariá-lo, pois se ele me quisesse neném, neném eu seria.
-       Eu quero, Flavinha. É exatamente assim que eu quero.
                           E, dizendo isso, ele me puxou para perto  e me deu um beijo na boca como eu jamais tinha experimentado. Desci do carro vendo estrelas cintilantes e coloridas. Tudo o que eu queria naquele instante era que o tempo parasse para sempre, mas quando me voltei para dar adeus, o carro já tinha sumido.