quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Ilustração 7 - Gilberto Marchi

Intertextualidade
Quando falamos em intertextualidade - definindo sucintamente: a correspondência entre dois textos - , lembramos imediatamente do texto escrito. Especialmente na literatura, um texto que remete a outro ou a uma ideia já consagrada e que aparece renovada, revestida, revisitada, enfim. Porém, ideias revisitadas estão presentes o tempo todo em nossa vida cotidiana. Pouco do que vemos ou dizemos é inteiramente original. Melhor dizendo, nada é original já que nossa visão de mundo está sempre apoiada numa premissa anterior. Este é um assunto vasto e empolgante.

Mas se não é original, também não se pode dizer que tudo se copia ... (lembram da frase?). Em se tratando de arte, bebe-se de inúmeras fontes, mas há uma alquimia única, particular, em cada obra,  quando a alma do artista ali se faz presente.

Não há que se falar muito, melhor dar um exemplo. Um belo exemplo...  Levando-se em conta que as imagens falam de um modo mais direto com o outro -  a partir de um olhar relâmpago a comunicação se faz de modo quase irreversível - vamos deixar que este lindo trabalho de Gilberto Marchi nos explique o que é criar, o que é intertexto. Alguém diria não haver aqui algo absolutamente novo?

A imagem fala por si.   

Monanelore - G. Marchi

Fonte: http://gilbertomarchi.blogspot.com/2009/09/ilustracao-monanelore.html

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Leitura 12 - Profissão dona de mim

Profissão dona de mim - FTD Editora

Viver em família é complicado! Ainda mais quando a família entra em crise! E, pior ainda, quando quem está em crise não é um filho, mas a mãe. Como entender? Como ajudar? Como conviver com alguém que se descobre insatisfeita com a vida de dona de casa e quer mudar de qualquer jeito? Entre papos sérios e outros divertidos, a familia inteira se mobiliza para achar a solução! 

trecho - pag.46-52
Conhecendo o diagnóstico.
Um dia a Simone entrou no apartamento comunicando:
- A Teca teve a maior discussão com a mãe dela, hoje. Disse que ela está uma chata.
- E o que é que nós temos a ver com isso? - logo fui cortando o papo dela.
- Nada. Só estou falando pra mamãe saber que não é só ela que anda chata, quer dizer, anda assim com problemas - a Simone logo corrigiu, pois a mamãe estava ouvindo tudo da cozinha. E ainda reforçou:
- Acho bom a mamãe saber que não é só ela que está passando por essa crise dos quarenta.
- Crise dos quarenta? - minha mãe apareceu na sala sem notar que eu e a Silvia estávamos prestes a agarrar o pescoço da Simone. - Quem disse para você que eu estou na crise dos quarenta, Simone?
- A Silvia - ela dedurou, achando que estava dando crédito para a irmã mais velha. - Ela descobriu rapidinho assim que nós contamos para ela sobre os seus chiliques.
- Chiliques! -  mamãe falou, pondo as mãos na cintura. - Ainda mais essa! Eu estou tendo chiliques!
Surpresa, ela sentou no braço do sofá, olhou bem para nós e perguntou:
- Vocês podem me explicar direitinho o que está acontecendo? Se entendi direito, vocês se reuniram para analisar os meus chiliques e a doutora Silvia já deu o seu diagnóstico: crise dos quarenta. Muito bom eu saber disso.
- Sabe o que é, mãe - a Silvia começou a explicar. - Nós ficamos preocupados com você. Você anda meio abatida, triste. Não foi isso, César? - ela perguntou, como quem pede socorro.
- Claro! Foi sem a menor maldade, mãe. só pensamos em ajudar - socorri.
- Pois então saibam de uma coisa - minha mãe falou. - O que eu tenho não é crise dos quarenta coisíssima nenhuma. Não estou me sentindo velha.
- Eu achei que era isso porque todas as pessoas da sua idade começam a se preocupar com uma porção de coisas que antes não perturbava - falou a Silvia. - Todo mundo comenta isso!
...
- Pode ser que mais tarde eu também venha a ter essa crise, não sei - minha mãe continuou. - Talvez também não seja fácil perceber que o físico está murchando, mas por enquanto eu ainda me sinto muito bem. O problema é outro, completamente diferente.
- Então explique, mãe - a Silvia pediu -, ou pelo menos tente, porque eu ainda não saquei direito.
- É difícil explicar - mamãe falou. - É assim como uma coisa que falta. Um buraco vazio. Como se eu não tivesse realizado nada esse tempo todo.
- Mas, mãe! Como não realizou nada? Você já fez tanta coisa! - a Silvia surpreendeu-se.
- Tanta coisa que eu não consigo apalpar - minha mãe retrucou. - Não existe nada concreto que eu possa dizer: "isso aqui foi feito por mim."
- Essa é muito boa! Nós fomos feitos por você - brincou a Simone. E podemos ser apalpados.
- Eu sei, querida - a mamãe esboçou um sorriso. - Esse lado está preenchido, realizado e não me arrependo de nada. Porém ficou um outro lado completamente inútil.
- Você quer dizer um lado profissional? - perguntei.
- Também, filho. Um lado onde você possa ver um resultado concreto. Um lado que te dê satisfação, orgulho. Algo que você tenha conquistado.
- Mas, mãe - falou Silvia -, me diz uma coisa: o que você conquista com o trabalho além de um pouco de dinheiro?
- Muita coisa, filha. O trabalho dá uma sensação de utilidade, de produção... Acho que é isso. Eu não me sinto produtiva.
...
Minha mãe continuou procurando a tal coisa que estava faltando e pareceu mais calma ou, pelo menos, fingiu estar. Uma vez ou outra conversava numa boa e parecia estar lendo bastante também. Ela tinha sacado que teria que se ajudar sozinha. Só mesmo ela poderia chegar à conclusão do que estava faltando. Mamãe só não percebia que, de um jeito ou de outro, esse assunto sempre vinha à baila. Até nas brincadeiras, nas frases irônicas que a gente diz quando está contrariado com alguèm. Sempre era dita alguma coisa como: "É só para isso que eu sirvo, mesmo"; "Ninguém respeita o meu espaço". Esse tal de espaço que todos aconselhavam a mamãe  a procurar e ela não encontrava. Tudo isso estava nos dando um tremendo trabalho.

  

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Ilustração 6 - Arthur Rackham (1867-1939)

Sempre vale apreciar o talento de um artista. As imagens (uma pequena amostra) dispensam comentários.

A Fairy



King of golden river



   Alice in Wonderland (by Lewis Carroll)



Fair Helena

Leitura 11 - Meu destino sou eu

Meu destino sou eu
Editora FTD
Trecho - Capítulo X - pags. 35/36

Pai e filho se encontraram na porta de casa.
- Não tem ninguém - Pedro avisou. E eu estou sem a chave.
- Como não tem ninguém? - irritou-se o pai, já colocando a chave na porta. - Onde se enfiou a sua mãe?
- Deve estar na loja. Ela costuma chegar um pouco mais tarde - disse Pedro, consultando o relógio. - Você é que chegou cedo.
- É. Quis fazer uma surpresa e fui surpreendido - reclamou o pai, enquanto entrava e ia direto discar para a loja.
- Clara? Sara? Avisa a sua mãe que eu já estou em casa.
Júlio desligou o telefone, zangado. Nem sombra da satisfação estampada no rosto quando tudo corria conforme seus planos. Algo tinha saído da rota.
Após uns quinze minutos, depois de terem fechado a loja apressadas e descido ladeira abaixo praticamente correndo, Sara, Clara e Edna entraram em casa. Elas bem sabiam o quanto Júlio desaprovava a loja e os transtornos provocados por ela em sua vida.
- Oi, querido. - Edna foi logo beijar o seu rosto.
- Oi - respondeu ele, lacônico e recebendo indiferente também os beijos das filhas.
- Chegou cedo hoje! - comentou Edna, guardando a bolsa.
- E você, tarde - respondeu ele.
- Tarde? Mas este é o meu horário! - ela estranhou.
- Que horário? - disse ele. - Você fecha a loja na hora que quiser.
- Pois então - ela o enfrentou. - Esta é a hora que eu quero.
- Já vão começar... - Sara falou baixinho para Clara.
- Você sabe que destesto não te encontrar em casa quando chego, Edna - Júlio protestou.
- Então me arranje uma bola de cristal pra eu poder adivinhar quando você vai chegar mais cedo. Certo? Eu estava trabalhando, sabia? Tra-ba-lhan-do.
- Sem precisar - emendou Júlio.
- Você implica com o meu trabalho, Júlio. E, pior, só lembra de mim quando eu não estou  em casa. Sou notada pela ausência!
E, dizendo isso, Edna correu para o quarto e se trancou. Júlio pareceu não se importar. Esta cena era reprise de muitas outras. então, voltou-se para o filho.
- Campeão, já vi que não sai janta hoje. Quer ir comigo numa lanchonete?
- Acho que não, pai. Eu estou uma fera hoje.
- É mesmo? Então vamos juntos nos consolar. Você me conta o que aconteceu pelo caminho. Vem, campeão - insistiu Júlio.
Júlio passou o braço pelo ombro do filho e, voltando-se para Clara e Sara, que, mudas, assistiam a eterna discussão, disse:
- Vocês duas façam companhia para a sua mãe.
Logo em seguida, Sara e Clara puderam ouvir os dois conversando do outro lado da porta:
- E elas vão comer o quê, pai?
- Elas se viram na cozinha, campeão... São mulheres...
(cap. XI - pag. 39)
...
Pouco tempo depois, Júlio e Pedro voltaram.
Arrependido, Júlio chamou Edna para o quarto para conversar. Sara já sabia o fim da história. Tinha assistido a essa cena inúmeras vezes. Ele pediria desculpas, assumiria que tinha exagerado na sua reação, no seu ciúme, na sua sensação de posse, na sua autoridade. Edna, ainda aborrecida, o perdoaria, e os dias passariam tranquilos até que algo parecido acontecesse outra vez...
Naquela noite, Sara custou a pegar no sono. Ficou relembrando várias passagens da sua infância. Nelas, invariavelmente, seu pai aparecia como aquele que roubava dela e da irmã toda a possibilidade de voo, toda a sensação de liberdade, de ser capaz.

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Leitura 10 - Acorda que a corda é bamba!

Acorda que a corda é bamba! - um grito de alerta para as drogas
Editora Aquariana / DeLeitura
Trecho: pags.77-79


...
    Lúcio improvisara um cachimbo para fumar a pedra. Tinha visto na revista. Uma latinha, uma tampinha qualquer, um canudo... Tão fácil! Depois, era botar a pedra, acender e pronto. Emoção forte nas pontas dos dedos. Liberdade, euforia. Devia ser melhor do que cheirar. Diziam que era mais forte.
    De repente, assustou-se com o barulho da porta:
- LÚCIO! ABRA ESTA PORTA! - era o pai, enérgico.
- Tô acordando, pai.
- Vem tomar café, Lúcio. Quero que você vá à praia com seus colegas hoje.
- Vai indo, pai. Depois eu vou.
- Abra esta porta. Quero falar com você.
- Me deixa quieto, pai. Eu vou depois. - Lúcio tentou ganhar tempo enquanto escondia o cachimbo debaixo das cobertas.
- Abra esta porta, filho! - o pai repetiu com a voz mais zangada.
   Lúcio abriu e voltou a atirar-se na cama. Preparou-se para o longo sermão.
- O que você está pretendendo com este comportamento arredio, filho? - o pai foi logo dizendo. - O que está pretendendo? Quer que todo mundo fique perguntando o que há com você? Quer chamar atenção?
- Claro que não, pai. Onte eu saí com eles.
- Durante uma hora, se tanto! - o pai lembrou. - Antes queria varar a noite com eles. Agora passa o dia trancado neste quarto. que raio de férias você está querendo ter? Quer me deixar maluco, Lúcio?
   Silêncio. Lúcio encolheu-se na cama e encarou o pai.
- Vá já tomar o seu café e vá para a praia conosco. Estou esperando - o pai ordenou.
- Vai indo na frente, pai. Eu vou logo atrás.
- Acho bom ir mesmo, Lúcio. Acho bom - Artur falou, afastando-se dali.
   Lúcio voltou a trancar a porta. Pretendia mesmo obedecer o pai para evitar encrencas maiores, no entanto não cabia em si de curiosidade. Abriu a gaveta de roupas e tateou em busca da pequena pedra. Pegou de mal jeito e ela caiu no chão. A inquietação inicial virou  desespero. Lúcio deitou-se no chão e rastejou sobre o tapete apalpando cada canto até encontrá-la. Segurou a pedra firme entre os dedos, alcançou o cachimbo por entre as cobertas da cama e o acendeu.
   Fumou a pedra repetindo os mesmos gestos vistos tantas e tantas vezes na televisão, nas revistas, nas ruas...
   Fechou os olhos e esperou que o mistério fosse desvendado, que o milagre acontecesse.
   Fumou a pedra com tragadas intermitentes e a cada inalação sentia o mundo inteiro vibrando intensamente dentro de si.
   O quarto virou paraíso, era o mundo medido em metros quadrados. Tudo estava sob seu único e exclusivo controle. Lúcio era feliz... Era incrível, indescritível, insuperável! ... Por que não te conheci antes, pedrinha? Por que não te busquei primeiro? Por que não me deixa feliz o tempo inteiro? 


(*)O livro foi matéria do programa “Imprensa e Comunicação em Debate”, Rádio Bandeirantes (AM).
A história tem base em fatos verídicos extraídos de cursos e pesquisas realizados  junto ao DENARC e a profissionais da área médica, especialistas em drogadependência, no tratamento e acompanhamento do usuário e de suas famílias. Ao propor duas alternativas de desfecho, o livro leva o leitor a considerar outras consequências possíveis, estabelecendo paralelos entre ficção e realidade.

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Artigo 2 - Um gosto de quero mais



Sonia Maria Dornellas Morelli
Regina Marta Fonseca Gonçalves
Carmem Sidneia Bonfanti da Silva
Simone Léa Marques Barreto

 

ANÁLISE LITERÁRIA

RESUMO:  O objetivo deste trabalho é apresentar alguns recursos inovadores utilizados na Literatura Infanto-Juvenil. Para a realização das idéias, tomamos como base a obra Um Gosto de Quero-Mais de Sonia Salerno Forjaz que tem como tema a gravidez na adolescência. Alguns aspectos foram analisados mediante teorias críticas de vários estudiosos. O ambiente familiar é analisado sob duas vertentes: em uma aparece a família aberta para o diálogo, em outra os pais têm idéias conservadoras. A busca da identidade é bem colocada pela autora. Apresenta também uma análise da interferência da Cultura de Massa, nessa literatura. A estética da obra, bem como o vocabulário típico dos adolescentes e as ilustrações, as mais variadas possíveis são criteriosamente observadas. Como o grande enfoque do trabalho é a Industria Cultural, correlacionando todos os aspectos analisados, acreditamos que este colabora trazendo formas novas para despertar a curiosidade dos alunos.
PALAVRAS-CHAVE: Literatura Infanto-Juvenil, Industria Cultural, inovações.

Leitura 9 - Um gosto de quero mais

                              Trecho - pag. 25


Darlene revela uma paixão 
- Seus pais são uns amores! – comentou Darlene enquanto se enfiava sob as cobertas da bicama.
- Eu acho – respondi. – Sou suspeita, mas acho que eles são demais.
...
- ... Se eu falasse com meu pai do mesmo jeito que você, levava a maior bronca e até podia ganhar uns tapas. Meu pai é muito autoritário.
...
Imagine então se ele descobre... Não quero nem pensar.
- Descobre o quê? Conta... O quê?
- Você jura não contar pra ninguém?
- Pra que jurar, Darlene? Desembucha!
- Só se você jurar. Eu estou louca pra te contar, mas ninguém mais pode saber. Você jura?
- Ta legal. Juro, vai.
...
- Eu e o Beto... estamos namorando... Você nem desconfiava?
- UAU!!! Namorando de verdade? Nem desconfiava. Bom... vai... francamente, desconfiava, mas pensei que você não tivesse coragem. Conta, conta. Conta mais.
....
- ... Desde quando vocês estão namorando?
- Desde aquele passeio na escola, no planetário. Tem três semanas. No planetário, imagina, foi logo pegando na minha mão.
- E daí?
- E daí que eu vi estrelas...
- Novidade, Darlene! E você queria ver o que no planetário?
...
- Vocês já se beijaram?
- Já. Aí sim que o calafrio fica melhor...
- Como é? Conta! Fala tudo! – enquanto eu perguntava, ia me agitando toda. Acabei pulando pra a bicama da Darlene.
- É bom, uai! Como vou te explicar... é delicioso.
...
- Você já beijou, por acaso, Cely?
- Não. Mas basta o Carlos me encarar daquele jeito, olho no olho, e pronto. Já sinto um troço. Se eu ficar imaginando um beijo, então...
- Pois se ele te beijar de verdade, você vai multiplicar este troço por milhões de outros troços.
- Acho que eu desmaio! – Fiz a cena caindo para trás na cama.
- Eu morro! É incrível!
- Mas, Darlene! Me conta uma coisa. A que horas vocês namoram, se o teu pai não te dá uma folguinha?
...
- Nem brinca, menina. Às vezes eu fico pensando se meu coração dispara por causa do Beto ou por medo do meu pai chegar de repente...
- Ah! Só falta descobrir que seu calafrio é de medo. Morro de rir com seu grande namoro!
- Claro que não é, sua boba! Você tem é inveja porque não namora.
- Inveja, eu? Você é muito mais velha do que eu! Tem mesmo que namorar primeiro.
- Muito mais velha, não, sua despeitada. Só seis meses. Você bem que queria estar no meu lugar.
- Eu??? Você está maluca? Eu ia lá querer beijar aquele cara horrível?
Ele não é horrível. Se você olhar bem, até que ele é engraçadinho...
- Bom. Quem ama o feio...
- E o Carlos por acaso é bonito? Aquele espinhudo?
- Espinhudo? Ele só tem uma espinha, coitado! E ele é lindo com espinha e tudo.
- Na ponta do nariz? Tem coragem de dizer que com aquela espinha na ponta do nariz ele é bonito?
- Tenho. É e pronto. Assunto encerrado. Fica você com o seu magricela e não mexe com meu amado.
- Não falei que você ficou com ciúme? Por que não confessa? Vamos! Ficou toda nervosa...
- Nervosa uma ova! Estou é com sono. Chega de papo.
E, dizendo isso, apaguei a luz..