Trecho de análise literária realizada pela AKRÓPOLIS - Revista de Ciências Humanas da UNIPAR
Akrópolis, Umuarama, v.12, nº.3, jul./set., sobre o livro “UM GOSTO DE QUERO MAIS”, nos dá uma ideia do alcance que pode ter a literatura para jovens leitores; do quanto pode ser dito e revelado sobre épocas, hábitos e costumes, ideologias, sociedade; do quanto pode ser revelado sobre o outro e, por contraste ou por identidade, sobre nós mesmos.
Um romance pode nos levar a entender nuances de um tempo, modos de existir, conviver e ser. Não à toa, tão importante a leitura que revela personagens múltiplos, emoções, ideais, reflexões que - não sendo nossas - podem nos colocar em confronto ou em cumplicidade, moldando nossas crenças pessoais, nos fazendo crescer.
Se o texto aborda um tema polêmico ou inovador, pode, muitas vezes, desencadear pequenos debates e conscientizações, a exemplo do que costumam fazer as novelas e seriados da TV, na exposição da vida contemporânea, seus tabus e preconceitos.
O trecho da análise abaixo nos reforça isso: não há melhor modo de aprender sobre a vida do que vivenciando experiências outras que, se não nos atingem diretamente, também não nos deixam totalmente ilesos. Cuidadoso trabalho que revela o quanto pode estar contido nas falas e opiniões de personagens, nas linhas e entrelinhas de um romance. Sim, a leitura transforma.
Para ler o estudo na íntegra, acesse: revistas.unipar.br/akropolis/article/viewFile/400/365
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O crítico Hall(1999,09), ao analisar a identidade moderna, ressalta que “[estas] transformações estão também mudando nossas identidades pessoais, abalando a idéia que temos de nós próprios como sujeitos integrados”. (grifamos)
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Uma forma contemporânea muita bem articulada pela autora é referente ao título Um Gosto de Quero Mais. Acredita-se que a autora pensou em melhorar o social, despertar o interesse do adolescente pelo título, pois este faz com que a ideia se volte para a sensualidade, já que o enfoque é a gravidez na adolescência mas, no decorrer da narrativa, a avó de Cely revela que “um gosto de quero-mais” nada mais é do que anseios e desejos de todos os seres humanos. “A verdade é que nós nunca estamos completamente satisfeitos. Fica, em tudo, aquele gosto de quero-mais.” (p.32) Este pensamento se completa no final com Cely: “Este é o gosto de quero-mais. Um gosto que não se define, é preciso sentir. É conquistar uma meta enquanto já se quer outra. É não fechar os olhos. É sentir profundamente cheiros, cores e emoções. É amar a vida. É viver!” (p.139)
Correlacionando todos os aspectos analisados, observa-se a preocupação da autora em chamar a atenção do leitor no que diz respeito à responsabilidade sobre nossos atos. Na narrativa a família não desampara a filha grávida e o namorado, mas estes são obrigados a assumir o bebê que vem e abrir mão do tipo de vida que tinham: “Ela trabalha como recepcionista de um consultório médico no período da manhã.” “À tarde ela cuida da filha...”. “Beto arrumou um emprego na firma de contabilidade do tio.” “À noite, Darlene vai para a escola com Beto.” (p.132). Tais falas parecem lembrar ao leitor que, também nesta fase, nos tornamos responsáveis por aquilo que fazemos, querendo ou não.
Acreditamos que a Indústria Cultural colabora trazendo formas novas para despertar a curiosidade dos alunos. Problematiza abordando estéticas inovadoras, tornando mais fácil o acesso a estas obras para o público infanto-juvenil. E para o bem ou para o mal este tipo de recurso é bem sucedido.' "
quarta-feira, 16 de abril de 2014
sexta-feira, 14 de março de 2014
Se valesse a pena
Sonia Salerno Forjaz
Eu não me importaria de trabalhar tanto,
se valesse a pena.
Não me importaria de levantar ainda
escuro, quando tudo ainda dorme, nem de lavar meu rosto nesta água fria que me
obriga a acordar e a viver.
Eu não me importaria de vestir roupa tão
rota, se valesse a pena.
Não me queixaria nunca, nem praguejaria
mais, se tanto esforço tivesse algum retorno, um benefício. 
Eu sempre falei com meus botões que meus
planos para ele eram bem outros. Que não daria a ele a vida que levei, e tudo
está no mesmo. Ele já sofre as consequências do que não conhece.
Eu não me importaria de levar vida tão
dura, se não fosse o seu olhar, quando
chego, a procurar nas mãos o presente que nunca pediu. Se não fosse esse
vasculhar esperançoso de não me ver assim vazio.
Ora trago uma pedra diferente de beira de
rio, ora um maço de cigarros sujo, pisoteado e tão vazio quanto eu, só pra
dizer que trouxe alguma coisa. Ele agradece e diz que vai colecionar essas
lembranças. Bugigangas que lhe trago quando ainda volto com olhos abertos
vasculhando chãos, como ele faz comigo e com minhas mãos.
Eu não me importaria com nada, se nada
fosse como é.
Não me importaria de acordar tão cedo e
tão frio, se valesse a pena. Não me importaria mesmo.
Bastava ver, no meu regresso, os olhinhos
dele faiscando, um sorriso brincando, uma mão se estendendo.
Bastava deixar de ver sua esperança
frustrada, deixar de assistir, dia após dia, seu arzinho faminto de novidades
e surpresas.
Bastava muito pouco acontecer e eu não me
importaria com nada... se valesse a pena.sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014
Capas 6 - O antes e o agora - Eu, cidadão do mundo


Somos todos cidadãos do mundo e nele precisamos aprender a existir. Por isso, a primeira capa, de João Baptista da Costa Aguiar, inspirou-se num cenário cósmico no qual a palavra EU se insere como parte integrante. Já, Niky Venâncio criou a segunda capa, estampando a palavra EU sobre a representação do globo terrestre e a cercou de pegadas humanas: indivíduo, andarilho, em busca de si e do outro nesse vasto, vasto Mundo.
Duas interpertações para um mesmo texto que, ao falar sobre o Homem, permite inúmeras e ricas leituras.
sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014
Textos 1 - Espelhos Partidos – um conto sem fadas
Parte I – Prefácio
“Certas
manhãs, devíamos ignorar o ruído estridente do despertador e permanecer na
cama, debaixo das cobertas, cabeça enfiada no travesseiro, nariz sufocado,
olhos bem fechados e desistir de viver. Parar de respirar, de pensar, de ver,
de andar. Fazer uma pausa, um intervalo, coisa assim leve, passageira e
provisória, que eu também não sou tão trágica. Tirar umas férias de vida. Isso.
Férias. Só isso.
A Lígia, minha irmã, implicou comigo, mal a gente se cruzou. Quer dizer, trombou. Eu querendo entrar e ela saindo do elevador, apressada, derrubando tudo o que eu tinha nas mãos.

Se eu soubesse disso antes, talvez nada tivesse acontecido. Mas como eu
não sabia, naquela manhã infeliz, levantei, tomei café, me arrumei e fui para a
escola. Andei feito barata tonta na sala de aula, no pátio, no caminho de
volta, no hall de entrada do prédio onde moro. Apertei o botão do elevador, distraída,
assim meio que flutuando no espaço, envolvida por doces lembranças em BUM!!!
- Ei, que droga! Tá dormindo,
Flávia?A Lígia, minha irmã, implicou comigo, mal a gente se cruzou. Quer dizer, trombou. Eu querendo entrar e ela saindo do elevador, apressada, derrubando tudo o que eu tinha nas mãos.
- Ai! A culpa não foi minha. Você
que é estabanada! – reclamei, furiosa.
- Eu sou estabanada? Você é que
tinha de me esperar sair, mas vive no mundo da lua!
Ela falava, enquanto pegávamos as coisas que tinham ficado espalhadas no
chão: livros, agenda, o material inteiro. Preferi não retrucar e continuei
recolhendo tudo, na minha. Não estava querendo conversa, quanto mais, briga.
Mas, como nem tudo é como a gente quer, minha irmã deu de cara bem com o que
não podia...
- O que é isso, Flávia? – ela perguntou,
já de pé, esfregando no meu nariz o envelope perfumado que tinha voado de
dentro do meu caderno.
- Nada, Lígia. Não se mete –
estendi o braço para apanhar o que era meu.
- Você está escrevendo para
aquele sujeitinho?
- Não! Me dá isso aqui. Vai
embora, Lígia. Você não estava com pressa?
- Como não? Tá escrito aqui, ó:
Júlio Figueiredo. Existe outro, por acaso? Agora também fazem clones de
abacaxis? Deixa só a mamãe saber disso – ela ameaçou, abanando o envelope e
voltando para o apartamento pela escada.
Fui atrás e tentei segurá-la.
- Delatora, metida, não faz isso!
– implorei, agarrada à sua blusa.
A blusa esticava, Lígia tentava se desvencilhar, mas, decidida,
subiu aos berros:
- MÃE!!! Ô MÃE, OLHA ISSO!
- Para, Lígia. Eu faço qualquer
coisa, o que você quiser, mas não conta...
Não tive tempo de fazer chantagem ou prometer nada porque a mamãe logo
apareceu na sala.
- Que gritaria é essa? O que
aconteceu, Lígia? Você não tinha ido para a escola?
- Tinha – a Lígia falou, firme e
dramática. – Mas o destino quis que eu trombasse com essa tonta só para me
jogar isso nas mãos! Dá só uma olhada, mãe!
- É MEU! – Eu protestei, quase
chorando e me atirando sobre o braço dela, tentando agarrar o envelope à força.
- Larga o meu braço, Flávia! –
Lígia mandava.
- É MEU! SOLTA!!!
- Larga que você está me
machucando, Flávia! A mamãe tem de saber o que você anda fazendo.
- O que eu tenho de saber,
afinal, alguém pode me dizer? – a mamãe falou autoritária e, ainda por cima,
mandou:
- Devolva isso para a sua irmã, Lígia.
Se é dela, devolva.
- DEVOLVER??? – Lígia não quis
acreditar que tinha perdido a parada.
- Sim, senhora – mamãe falou
firme.
Lígia me devolveu o envelope
contrariada e eu, ingênua, por alguns segundos me senti vitoriosa. Já tinha
virado as costas, quando a mamãe perguntou:
- O que é isso, Flávia?
Quando me voltei para ela, pude ver o brilho dos olhos de Lígia
saboreando aquele momento. Minha desgraça, sua glória!
- Coisa minha, mãe. Nada
importante – falei.
- Eu conto! – a Lígia já foi se
metendo outra vez.
- Ela conta – a mamãe falou,
apontando para mim e usando um tom que não permitia protestos.
- É só uma carta... – arrisquei dizer.
- Carta de quem? – a mamãe
perguntou e Lígia se meteu de novo.
- Carta pra quem, mãe! Pergunte:
carta pra quem! Você vai cair de costas! É inacreditável!
- Lígia, vá para a escola que
você está atrasada – a mamãe mandou. – Deixe que eu me entendo com a sua irmã.
Claro que minha irmã não obedeceu. Esperou o circo pegar fogo, já com
uma tocha na mão bem acesa para o caso de o incêndio não ter as proporções que
ela esperava. Então, eu não tive outra escolha senão responder:
- É uma carta para o Julinho...
- Para quem??? – minha mãe fingiu
não ter entendido o que não queria entender.
- Para o Julinho – a Lígia tratou
de repetir bem alto.
- Não posso acreditar, Flávia!
Você escrevendo para aquele cafajeste?
Eu só baixei a cabeça e grudei os olhos num ponto qualquer do desenho do
tapete.
Não era comigo. Aquilo não estava acontecendo comigo. Eu não tinha
levantado, não tinha saído da cama, não tinha nem ido à escola. Eu ainda estava
lá protegida pelas cobertas, com a cara enfiada no travesseiro, quase sem
respirar. Dando um tempo para o temporal passar. Mas ele não tinha nem
começado. Minha mãe ia ainda fazer um sermão daqueles, eu sabia. E sabia o
sermão de cor, de trás para afrente, da frente para trás.
- Será que precisamos conversar
de novo, Flávia? Ainda não deu para entender?
- Conversar, mãe? E com ela
adianta? – disse a Lígia, sempre pronta para atacar.
- Vá para a escola, Lígia. Esse
assunto não lhe diz respeito – a mamãe falou.
Desta vez a Lígia obedeceu, pois já tinha ficado evidente que as coisas
não seriam fáceis para mim. Ela podia seguir sua vida tranquila, ciente de que
eu viveria o inferno. E isso lhe dava um estranho prazer.
Eu sabia muito bem o que estava reservado para mim. A mamãe ia falar,
falar e falar e depois ia ligar para o meu pai e, depois de contar tudo a ele,
ia me passar o telefone. Meu pai ia largar seu filhinho adorado e resmungar
pelos aborrecimentos causados pelas filhas do seu primeiro casamento. A nova
esposa dele entraria na sala batendo com os pés no assoalho, para que eu
escutasse o som da sua impaciência e lembrasse que estava roubando um tempo
precioso da convivência dela com seu digníssimo marido. O bebê ia abrir o
berreiro e pedir colo para o pai dele, que por acaso era meu também, e então
ele, meu pai, feliz por ser interrompido, diria: “chame a sua mãe!”
Tudo isso aconteceria mais ou menos nessa ordem, eu sabia. E sabia por
já ter assistido a esse filme outras vezes.
Mas a minha mãe interrompeu as minhas imagens mentais e me fez lembrar
que eu tinha, sim, saído da cama para viver aquelas experiências desagradáveis.
- Pode começar a explicar
tudinho, antes que eu ligue para o seu pai.
- Explicar o quê, mãe? É a mesma
coisa de sempre – eu falei com o olho ainda grudado no mesmo ponto do tapete.
- Olhe para mim e responda: você
não tem um pingo de vergonha nessa cara?
- Eu amo o Julinho – sussurrei tão
baixo que nem eu escutei.
- Você o quê, Flávia?
- Eu amo o Julinho.
- Depois de tudo, você ainda tem
coragem de me dizer isso? – ela falou, espantada. – Amor?! E você, por acaso,
sabe lá o que é o amor?
- Eu-amo-o-Julinho – repeti mais
alto, pausada e heroicamente quando a vontade era de gritar: EU AMO E AMO E AMO
O JULINHO e deixar claro que eu sabia muito bem o que era amar e que ninguém era
capaz de amar como eu.
- Não posso acreditar no que
estou ouvindo, Flávia. Depois de tudo?
Balancei a cabeça como quem afirma: Sim, depois de tudo.
- Não doeu, não feriu, não
magoou?
Balancei a cabeça outra vez, querendo dizer: Sim, doeu. Sim, feriu. Sim,
magoou. Muito.
- E então, minha filha. Quer
voltar a sofrer? Não foi suficiente? Já não falamos tanto?
Virei a cabeça de lado e encolhi os ombros querendo dizer: Não sei.
- Filha... Não sei mais o que
fazer com você para que esqueça esse homem. Confesso que não sei mais o que
fazer... – mamãe usou um tom de voz muito triste e cansado.
Eu fiquei em silêncio olhando o mesmo ponto no chão.
- Vou ter de falar com seu pai
outra vez, Flávia. Não vejo saída.
Balancei a cabeça como quem diz que entende e virei na direção do meu
quarto, mas ela pediu:
- Me dá esta carta.
- Não. É pessoal – falei.
- Não quero ler, filha. Só não
quero que você a envie.
- Escrevo outra...
Aí foi a vez de ela balançar a cabeça como a dizer: onde foi que eu
errei? Pergunta que os pais sempre se fazem, quando acham que estão perdendo
uma batalha.
E eu fui me arrastando lentamente para o lugar de onde jamais devia ter
saído. Entrei no quarto, tirei os sapatos, joguei os livros num canto, segurei
a carta bem perto do meu peito, deitei com a cara enterrada no travesseiro e
respirei bem fraquinho, bem baixinho, para dar uma parada no tempo, no meu sentimento,
na vida.
Só o pensamento voou...”quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014
Capas 5 - O antes e o agora - Tempos de viver


Em 2005, Tempos de viver ganhou nova edição, com capa de Niky Venâncio, assumindo uma aparência mais leve, colorida e moderna que agradou aos jovens leitores. Roupagem nova muitas vezes necessária por razões de mercado, especialmente quando os livros abordam temas atemporais como este. Pais e filhos, relações que se transformam através dos tempos sem jamais perder a essência: a difícil arte de se relacionar com o maior dos afetos.
sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014
Artigo 3 - Como interpreto Mar, se tudo o que conheço é Chão?
Para
contar essa história verídica, vou relembrar rapidamente algumas definições de
leitura, como as dadas por Maria Helena Martins[1],
em seu livro, O que é leitura?
b)
processo de compreensão
abrangente cuja dinâmica envolve componentes sensoriais, emocionais,
intelectuais, fisiológicos, neurológicos, culturais, econômicos e políticos - Ou seja, o indivíduo, como agente e parte da
sociedade em que vive, inteiro, lê, conhece, compreende. (você lê com tudo
aquilo que você é).
A leitura é o processo de interação do indivíduo com seu meio. Pela leitura eu conheço a voz do outro, com a qual construo meu aprendizado e minha linguagem. E isso é mais do que somar elementos. É uma interação, pois o que foi somado, juntado, modifica o que já existia, e nada mais é o que era antes.
Agora a história.
Ela se passa no interior de um estado brasileiro, por volta dos anos 70, época em que
usar recursos áudio visuais numa escola sem recurso algum era pura ficção científica.
Ela se passa no interior de um estado brasileiro, por volta dos anos 70, época em que
usar recursos áudio visuais numa escola sem recurso algum era pura ficção científica.
A professora conseguiu o seu
primeiro emprego num curso de alfabetização de adultos e, empolgada, decidiu
que, além de alfabetizar, enriqueceria aquelas mentes com narrativas que seriam lidas para os alunos semanalmente.
Foi num desses encontros de
leitura que apareceu o Mar. Imenso, imponente, lindo, mas que não alcançou
nenhum ouvinte. E a professora, surpresa, descobriu que nenhum daqueles adultos
tinha visto um dia aquelas águas que ela mostrou nas gravuras, tentou descrever
de mil maneiras sem sucesso.
A leitura, então, foi
interrompida, mas não a preocupação da professora que voltou, na aula seguinte,
munida de um Atlas Geográfico, na esperança de que, assim, pudesse dar aos
alunos uma ideia do que era o Mar. Mas aqueles traços planos e
abstratos só fizeram confundir mais os alunos.
Sem desistir, a jovem
professora levou fotos de outros livros, de seu arquivo pessoal, mas o alcance
das fotos estava longe de representar o Mar. E os alunos ainda a olhavam
descrentes.
Então, ela fez mais: levou
consigo um Globo Terrestre que não era iluminado, mas girava sobre seu eixo,
dando uma ideia melhor do que era chão, do que era água. E, ingênua, tentou
mostrar a eles onde estavam, onde viviam, em que ponto daquela bola ficava a
pequena cidade; e que todo aquele azul era oceano, era Mar.
Ainda não foi dessa vez que o Mar
foi compreendido.
Nesse dia, quando a professora
se preparava para sair e juntava seu material sobre a mesa, chegou uma aluna,
de cabelos longos e escuros, rosto jovem, pés castigados, com certa pressa de
pegar, quem sabe, um final de aula. Sem ver os colegas, ela parou, olhou
para a mesa da professora e revelou seu desapontamento.
-
Ah! Logo hoje que eu faltei teve bingo?
- e foi
embora.
A professora, visivelmente cansada, ficou
diante da mesa, abraçada aos seus livros. Olhou para o Globo Terrestre perfeitamente
associado ao jogo cuja roda gira e que, girando, construiu sentidos para a sua
aluna. Roda palpável que a aluna viu, conheceu, era capaz de entender.
E só então (depois de anos de
estudo), a professora vivenciou o que é Leitura. Não apenas de palavras, mas de
mundo.
“Processo
de interação com seu meio”. ...”que envolve componentes sensoriais,
culturais...”, “ você lê com tudo aquilo
que você é”.
Sim. Você lê com tudo aquilo
que você é, com tudo aquilo que já viu e conheceu um dia. Mas, às vezes, os
limites do que somos são tão estreitos, que não cabe a palavra Mar.
P.S. meses depois, a professora
organizou um passeio com os alunos e todos puderam LER o Mar, tão imenso que antes não cabia!
quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014
Capas 4 - O antes e o agora - Acorda! que a corda é bamba

O artista lê o texto e o interpreta. Ao interpretá-lo, dá a ele sua versão - sua leitura - e define traços e cores, se apossando do livro: enquanto leitor, enquanto artista criativo e criador.
Mas outras coisas têm aí seu peso: o tema, a época - e paro por aqui porque a lista é extensa, mas são essas as questões que mais explicam o que vou contar.
A primeira capa do livro Acorda! que a corda é bamba é do talentoso João Baptista da Costa Aguiar, que soube, com sua arte, dar ao livro o impacto que ele certamente provocava. A imagem desfocada de um grito, uma boca aberta simulando certo desespero em avisar algo importante e urgente.

Porém, parte do público, por uma série de razões também justificáveis, ainda temia que a questão fosse mal interpretada e sugeriu ao editor que a capa fosse "atenuada", sob pena de não poder adotá-lo. Como "atenuar" a interpretação de um capista? Se esta foi sua leitura e sensação, assim devia ser mantido. E assim foi feito. Mas, visando não afugentar leitores, a editora concordou em colocar uma tarja lateral que explicasse o grito: "um grito de alerta para as drogas". Tudo, assim, parecia resolvido. Sim, é um grito - não de terror, não de horror ou pavor -, mas de alerta... Nada além disso.
Ah! querer burlar verdades, iludir o leitor jamais desavisado, não é tática que dê bons frutos. Afinal, quantos leitores não viam o assunto com um temor verdadeiro Mas a medida funcionou, já que o que o livro pretendia era conscientizar, discutir, de fato, alertar. E, com esta primeira capa - que muitos começaram a entender e a aprovar - o livro foi seguindo seu caminho até encontrar seu espaço.
Anos depois, mais precisamente em 2005, durante a reformulação de catálogo e de uma série de títulos da editora Aquariana/DeLeitura, a artista Niky Venâncio criou uma nova capa. Na sua leitura, o grito dispensa a boca e se comunica através de uma explosão de cor. Um tom vermelho e uma fonte não padronizada "gritam" sobre um amarelo vivo, dando o mesmo necessário aviso: Acorda! que a corda é bamba. No subtítulo, a explicação mantida: sim, estamos falando sobre drogas.
Pois o alerta continua sendo dado - por todos os meios e formas permitidos ,- o tema continua impactante, sério, importante... sempre um necessário grito!
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