quarta-feira, 16 de abril de 2014

Artigo 4 - Literatura e Sociedade

Trecho de análise literária realizada pela AKRÓPOLIS - Revista de Ciências Humanas da UNIPAR
Akrópolis, Umuarama, v.12, nº.3, jul./set., sobre o livro “UM GOSTO DE QUERO MAIS”, nos dá uma ideia do alcance que pode ter a literatura para jovens leitores; do quanto pode ser dito e revelado sobre épocas, hábitos e costumes, ideologias, sociedade; do quanto pode ser revelado sobre o outro e, por contraste ou por identidade, sobre nós mesmos.

Um romance pode nos levar a entender nuances de um tempo, modos de existir, conviver e ser. Não à toa, tão importante a leitura que revela personagens múltiplos, emoções, ideais, reflexões que - não sendo nossas - podem nos colocar em confronto ou em cumplicidade, moldando nossas crenças pessoais, nos fazendo crescer.

Se o texto aborda um tema polêmico ou inovador, pode, muitas vezes, desencadear pequenos debates e conscientizações, a exemplo do que costumam fazer as novelas e seriados da TV, na exposição da vida contemporânea, seus tabus e preconceitos.

O trecho da análise abaixo nos reforça isso: não há melhor modo de aprender sobre a vida do que vivenciando experiências outras que, se não nos atingem diretamente, também não nos deixam totalmente ilesos. Cuidadoso trabalho que revela o quanto pode estar contido nas falas e opiniões de personagens, nas linhas e entrelinhas de um romance. Sim, a leitura transforma.

Para ler o estudo na íntegra, acesse: revistas.unipar.br/akropolis/article/viewFile/400/365

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Sobre "Um gosto de quero mais" - AKRÓPOLIS - Revista de Ciências Humanas da UNIPAR
 
" 'Destacam-se três gerações em uma mesma família, cada uma com suas diferenças entre idade x ideologia. Há um questionamento dos valores sociais. É como se a autora procurasse denunciá-los através de uma história. A personagem Cely escreve em seu diário sobre a infância reprimida da avó. “Ela sempre quis estudar mais e o seu pai não deixou.” (p.09) Continua falando da mãe “Viveu com mais liberdade, porém uma liberdade vigiada bem de pertinho.” (p.10) Hoje Cely tem mais oportunidades: “Papai adora investir em educação!” (p.11). As obrigações diárias também mudaram; no tempo da vovó já era difícil: “Já no meu tempo era assim. Trabalhar e trabalhar. Criar filhos, correr com a casa, com a roupa... Não tinha fim.” (p.16) Com a personagem Nancy já é um pouco diferente: “Casas, comida, compras de supermercados, feira... Fora o trabalho das escolas: provas, aulas, apostilas... É demais pra ela.” (p.15). Cely oferece ajuda e a mãe, querendo futuro melhor para a filha, quer que ela estude “- Não, filha, vá estudar que você tem prova hoje.” (p.13) A personagem Cely mostra que pelas conversas que tem com a avó e a mãe já tem uma preocupação, uma ideologia de querer ser mais do que as duas. Percebe que em seu futuro terá algo mais do que elas. “Hoje isso não existe. É preciso ser alguma coisa mais. Temos todas as chances. Educação, informação, mil cursos paralelos...” (p.11)

O crítico Hall(1999,09), ao analisar a identidade moderna, ressalta que  “[estas] transformações estão também mudando nossas identidades pessoais, abalando a idéia que temos de nós próprios como sujeitos integrados”. (grifamos)

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Uma forma contemporânea muita bem articulada pela autora é referente ao título Um Gosto de Quero Mais. Acredita-se que a autora pensou em melhorar o social, despertar o interesse do adolescente pelo título, pois este faz com que a ideia se volte para a sensualidade, já que o enfoque é a gravidez na adolescência mas, no decorrer da narrativa, a avó de Cely  revela que  “um gosto de quero-mais” nada mais é do que anseios e desejos de todos os seres humanos. “A verdade é que nós nunca estamos completamente satisfeitos. Fica, em tudo, aquele gosto de quero-mais.” (p.32) Este pensamento se completa no final com Cely: “Este é o gosto de quero-mais. Um gosto que não se define, é preciso sentir. É conquistar uma meta enquanto já se quer outra. É não fechar os olhos. É sentir profundamente cheiros, cores e emoções. É amar a vida. É viver!” (p.139)

Correlacionando todos os aspectos analisados, observa-se a preocupação da autora em chamar a atenção do leitor no que diz respeito à responsabilidade sobre nossos atos. Na narrativa a família não desampara a filha grávida e o namorado, mas estes são obrigados a assumir o bebê que vem e abrir mão do tipo de vida que tinham: “Ela trabalha como recepcionista de um consultório médico no período da manhã.” “À tarde ela cuida da filha...”. “Beto arrumou um emprego na firma de contabilidade do tio.” “À noite, Darlene vai para a escola com Beto.” (p.132). Tais falas parecem lembrar ao leitor que, também nesta fase, nos tornamos responsáveis por aquilo que fazemos, querendo ou não.

Acreditamos que a Indústria Cultural colabora trazendo formas novas para despertar a curiosidade dos alunos. Problematiza abordando estéticas inovadoras, tornando mais fácil o acesso a estas obras para o público infanto-juvenil. E para o bem ou para o mal este tipo de recurso é bem sucedido.' "

sexta-feira, 14 de março de 2014

Se valesse a pena


 
Sonia Salerno Forjaz

     Eu não me importaria de trabalhar tanto, se valesse a pena.
     Não me importaria de levantar ainda escuro, quando tudo ainda dorme, nem de lavar meu rosto nesta água fria que me obriga a acordar e a viver.

     Eu não me importaria de vestir roupa tão rota, se valesse a pena.
     Não me queixaria nunca, nem praguejaria mais, se tanto esforço tivesse algum retorno, um benefício.

     Eu não me importaria de morar tão longe, se na minha volta eu não continuasse tão vazio. Vazio nos bolsos, no coração, nas mãos cansadas.
     Não choraria essa sina minha, se cada gota de suor valesse um sorriso do meu menino.

     Eu sempre falei com meus botões que meus planos para ele eram bem outros. Que não daria a ele a vida que levei, e tudo está no mesmo. Ele já sofre as consequências do que não conhece.
     Eu não me importaria de levar vida tão dura, se não fosse  o seu olhar, quando chego, a procurar nas mãos o presente que nunca pediu. Se não fosse esse vasculhar esperançoso de não me ver assim vazio.

     Ora trago uma pedra diferente de beira de rio, ora um maço de cigarros sujo, pisoteado e tão vazio quanto eu, só pra dizer que trouxe alguma coisa. Ele agradece e diz que vai colecionar essas lembranças. Bugigangas que lhe trago quando ainda volto com olhos abertos vasculhando chãos, como ele faz comigo e com minhas mãos.
     Eu não me importaria com nada, se nada fosse como é.

     Não me importaria de acordar tão cedo e tão frio, se valesse a pena. Não me importaria mesmo.
     Bastava ver, no meu regresso, os olhinhos dele faiscando, um sorriso brincando, uma mão se estendendo.

     Bastava deixar de ver sua esperança frustrada, deixar de assistir, dia após dia,  seu arzinho faminto de novidades e surpresas.
     Bastava muito pouco acontecer e eu não me importaria com nada... se valesse a pena.

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

Capas 6 - O antes e o agora - Eu, cidadão do mundo

   Conheça as duas versões de capas feitas para o livro Eu, cidadão do mundo. O livro conta a história de Ricardo, jovem convidado para coordenar as atividades do clube de uma pequena cidade. Tarefa que parecia simples, até ele descobrir o quão complexo é lidar com grupos de pessoas diferentes nas ideias, nos objetivos, nas atitudes. Ricardo descobre que conviver é difícil, liderar ainda mais, e tenta estabelecer entre todos um diálogo quase impossível.
   O clube estabelece um paralelo com a sociedade, um microcosmo daquilo que vivemos em escala maior: questões que envolvem liderança, decisões comuns para interesses nem sempre convergentes, mas sobretudo, que exigem relações pautadas pela ética e pelo respeito.
   Somos todos cidadãos do mundo e nele precisamos aprender a existir. Por isso, a primeira capa, de João Baptista da Costa Aguiar, inspirou-se num cenário cósmico no qual a palavra EU se insere como parte integrante. Já, Niky Venâncio criou a segunda capa, estampando a palavra EU sobre a representação do globo terrestre e a cercou de pegadas humanas: indivíduo, andarilho, em busca de si e do outro nesse vasto, vasto Mundo.   
   Duas interpertações para um mesmo texto que, ao falar sobre o Homem, permite inúmeras e ricas leituras.

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Textos 1 - Espelhos Partidos – um conto sem fadas

Parte I – Prefácio 

    “Certas manhãs, devíamos ignorar o ruído estridente do despertador e permanecer na cama, debaixo das cobertas, cabeça enfiada no travesseiro, nariz sufocado, olhos bem fechados e desistir de viver. Parar de respirar, de pensar, de ver, de andar. Fazer uma pausa, um intervalo, coisa assim leve, passageira e provisória, que eu também não sou tão trágica. Tirar umas férias de vida. Isso. Férias. Só isso.

   Se eu soubesse disso antes, talvez nada tivesse acontecido. Mas como eu não sabia, naquela manhã infeliz, levantei, tomei café, me arrumei e fui para a escola. Andei feito barata tonta na sala de aula, no pátio, no caminho de volta, no hall de entrada do prédio onde moro. Apertei o botão do elevador, distraída, assim meio que flutuando no espaço, envolvida por doces lembranças em BUM!!!
- Ei, que droga! Tá dormindo, Flávia?

   A Lígia, minha irmã, implicou comigo, mal a gente se cruzou. Quer dizer, trombou. Eu querendo entrar e ela saindo do elevador, apressada, derrubando tudo o que eu tinha nas mãos.

- Ai! A culpa não foi minha. Você que é estabanada! – reclamei, furiosa.
- Eu sou estabanada? Você é que tinha de me esperar sair, mas vive no mundo da lua!

   Ela falava, enquanto pegávamos as coisas que tinham ficado espalhadas no chão: livros, agenda, o material inteiro. Preferi não retrucar e continuei recolhendo tudo, na minha. Não estava querendo conversa, quanto mais, briga. Mas, como nem tudo é como a gente quer, minha irmã deu de cara bem com o que não podia...
- O que é isso, Flávia? – ela perguntou, já de pé, esfregando no meu nariz o envelope perfumado que tinha voado de dentro do meu caderno.

- Nada, Lígia. Não se mete – estendi o braço para apanhar o que era meu.
- Você está escrevendo para aquele sujeitinho?

- Não! Me dá isso aqui. Vai embora, Lígia. Você não estava com pressa?
- Como não? Tá escrito aqui, ó: Júlio Figueiredo. Existe outro, por acaso? Agora também fazem clones de abacaxis? Deixa só a mamãe saber disso – ela ameaçou, abanando o envelope e voltando para o apartamento pela escada.

   Fui atrás e tentei segurá-la.
- Delatora, metida, não faz isso! – implorei, agarrada à sua blusa.

   A blusa esticava, Lígia tentava se desvencilhar, mas, decidida, subiu  aos berros:
- MÃE!!! Ô MÃE, OLHA ISSO!

- Para, Lígia. Eu faço qualquer coisa, o que você quiser, mas não conta...
   Não tive tempo de fazer chantagem ou prometer nada porque a mamãe logo apareceu na sala.

- Que gritaria é essa? O que aconteceu, Lígia? Você não tinha ido para a escola?
- Tinha – a Lígia falou, firme e dramática. – Mas o destino quis que eu trombasse com essa tonta só para me jogar isso nas mãos! Dá só uma olhada, mãe!

- É MEU! – Eu protestei, quase chorando e me atirando sobre o braço dela, tentando agarrar o envelope à força.
- Larga o meu braço, Flávia! – Lígia mandava.

- É MEU! SOLTA!!!
- Larga que você está me machucando, Flávia! A mamãe tem de saber o que você anda fazendo.

- O que eu tenho de saber, afinal, alguém pode me dizer? – a mamãe falou autoritária e, ainda por cima, mandou:
- Devolva isso para a sua irmã, Lígia. Se é dela, devolva.

- DEVOLVER??? – Lígia não quis acreditar que tinha perdido a parada.
- Sim, senhora – mamãe falou firme.

   Lígia me devolveu o envelope contrariada e eu, ingênua, por alguns segundos me senti vitoriosa. Já tinha virado as costas, quando a mamãe perguntou:
- O que é isso, Flávia?

   Quando me voltei para ela, pude ver o brilho dos olhos de Lígia saboreando aquele momento. Minha desgraça, sua glória!
- Coisa minha, mãe. Nada importante – falei.

- Eu conto! – a Lígia já foi se metendo outra vez.
- Ela conta – a mamãe falou, apontando para mim e usando um tom que não permitia protestos.

- É só uma carta... – arrisquei dizer.
- Carta de quem? – a mamãe perguntou e Lígia se meteu de novo.

- Carta pra quem, mãe! Pergunte: carta pra quem! Você vai cair de costas! É inacreditável!
- Lígia, vá para a escola que você está atrasada – a mamãe mandou. – Deixe que eu me entendo com a sua irmã.

   Claro que minha irmã não obedeceu. Esperou o circo pegar fogo, já com uma tocha na mão bem acesa para o caso de o incêndio não ter as proporções que ela esperava. Então, eu não tive outra escolha senão responder:
- É uma carta para o Julinho...
- Para quem??? – minha mãe fingiu não ter entendido o que não queria entender.

- Para o Julinho – a Lígia tratou de repetir bem alto.
- Não posso acreditar, Flávia! Você escrevendo para aquele cafajeste?

   Eu só baixei a cabeça e grudei os olhos num ponto qualquer do desenho do tapete.
   Não era comigo. Aquilo não estava acontecendo comigo. Eu não tinha levantado, não tinha saído da cama, não tinha nem ido à escola. Eu ainda estava lá protegida pelas cobertas, com a cara enfiada no travesseiro, quase sem respirar. Dando um tempo para o temporal passar. Mas ele não tinha nem começado. Minha mãe ia ainda fazer um sermão daqueles, eu sabia. E sabia o sermão de cor, de trás para afrente, da frente para trás.

- Será que precisamos conversar de novo, Flávia? Ainda não deu para entender?
- Conversar, mãe? E com ela adianta? – disse a Lígia, sempre pronta para atacar.

- Vá para a escola, Lígia. Esse assunto não lhe diz respeito – a mamãe falou.
   Desta vez a Lígia obedeceu, pois já tinha ficado evidente que as coisas não seriam fáceis para mim. Ela podia seguir sua vida tranquila, ciente de que eu viveria o inferno. E isso lhe dava um estranho prazer.

   Eu sabia muito bem o que estava reservado para mim. A mamãe ia falar, falar e falar e depois ia ligar para o meu pai e, depois de contar tudo a ele, ia me passar o telefone. Meu pai ia largar seu filhinho adorado e resmungar pelos aborrecimentos causados pelas filhas do seu primeiro casamento. A nova esposa dele entraria na sala batendo com os pés no assoalho, para que eu escutasse o som da sua impaciência e lembrasse que estava roubando um tempo precioso da convivência dela com seu digníssimo marido. O bebê ia abrir o berreiro e pedir colo para o pai dele, que por acaso era meu também, e então ele, meu pai, feliz por ser interrompido, diria: “chame a sua mãe!”
   Tudo isso aconteceria mais ou menos nessa ordem, eu sabia. E sabia por já ter assistido a esse filme outras vezes.

   Mas a minha mãe interrompeu as minhas imagens mentais e me fez lembrar que eu tinha, sim, saído da cama para viver aquelas experiências desagradáveis.
- Pode começar a explicar tudinho, antes que eu ligue para o seu pai.

- Explicar o quê, mãe? É a mesma coisa de sempre – eu falei com o olho ainda grudado no mesmo ponto do tapete.
- Olhe para mim e responda: você não tem um pingo de vergonha nessa cara?

- Eu amo o Julinho – sussurrei tão baixo que nem eu escutei.
- Você o quê, Flávia?

- Eu amo o Julinho.
- Depois de tudo, você ainda tem coragem de me dizer isso? – ela falou, espantada. – Amor?! E você, por acaso, sabe lá o que é o amor?

- Eu-amo-o-Julinho – repeti mais alto, pausada e heroicamente quando a vontade era de gritar: EU AMO E AMO E AMO O JULINHO e deixar claro que eu sabia muito bem o que era amar e que ninguém era capaz de amar como eu.
- Não posso acreditar no que estou ouvindo, Flávia. Depois de tudo?

   Balancei a cabeça como quem afirma: Sim, depois de tudo.
- Não doeu, não feriu, não magoou?

   Balancei a cabeça outra vez, querendo dizer: Sim, doeu. Sim, feriu. Sim, magoou. Muito.
- E então, minha filha. Quer voltar a sofrer? Não foi suficiente? Já não falamos tanto?

   Virei a cabeça de lado e encolhi os ombros querendo dizer: Não sei.
- Filha... Não sei mais o que fazer com você para que esqueça esse homem. Confesso que não sei mais o que fazer... – mamãe usou um tom de voz muito triste e cansado.

   Eu fiquei em silêncio olhando o mesmo ponto no chão.
- Vou ter de falar com seu pai outra vez, Flávia. Não vejo saída.

   Balancei a cabeça como quem diz que entende e virei na direção do meu quarto, mas ela pediu:
- Me dá esta carta.

- Não. É pessoal – falei.
- Não quero ler, filha. Só não quero que você a envie.

- Escrevo outra...
   Aí foi a vez de ela balançar a cabeça como a dizer: onde foi que eu errei? Pergunta que os pais sempre se fazem, quando acham que estão perdendo uma batalha.

   E eu fui me arrastando lentamente para o lugar de onde jamais devia ter saído. Entrei no quarto, tirei os sapatos, joguei os livros num canto, segurei a carta bem perto do meu peito, deitei com a cara enterrada no travesseiro e respirei bem fraquinho, bem baixinho, para dar uma parada no tempo, no meu sentimento, na vida.
   Só o pensamento voou...”

 

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Capas 5 - O antes e o agora - Tempos de viver

   O livro Tempos de Viver, lançado em 1999, também teve duas capas. A primeira delas, de autoria de João Baptista da Costa Aguiar, é um recorte da obra de Michelangelo, "A criação de Adão", célebre afresco pintado por volta de 1511 no teto da Capela Sistina.
   Como se sabe, a obra representa um episódio do livro Gênesis, no qual Deus cria o primeiro homem, Adão, e a cena retrata bem e de forma poética a temática do livro: o relacionamento entre pais e filhos.
   Em 2005, Tempos de viver  ganhou nova edição, com capa de Niky Venâncio, assumindo uma aparência mais leve, colorida e moderna que agradou aos jovens leitores. Roupagem nova muitas vezes necessária por razões de mercado, especialmente quando os livros abordam temas atemporais como este. Pais e filhos, relações que se transformam através dos tempos sem jamais perder a essência: a difícil arte de se relacionar com o maior dos afetos.

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Artigo 3 - Como interpreto Mar, se tudo o que conheço é Chão?


      Para contar essa história verídica, vou relembrar rapidamente algumas definições de leitura, como as dadas por Maria Helena Martins[1], em seu livro, O que é leitura?
 
 a)       a decodificação mecânica de signos mediante aprendizado -    É o  Vygotsky chama de habilitação mecânica, que garante a decifração do código, mas não a leitura.
 
      Fácil identificar esse processo quando desembarcamos num aeroporto de um país cuja língua não conhecemos. Com sorte e uma mínima noção de inglês, diante da palavra EXIT encontraremos a saída. Mas não iremos muito além, se soubermos apenas decodificar.
 
        Por isso, melhor definição seria:
 
b)       processo de compreensão abrangente cuja dinâmica envolve componentes sensoriais, emocionais, intelectuais, fisiológicos, neurológicos, culturais, econômicos e políticos -   Ou seja, o indivíduo, como agente e parte da sociedade em que vive, inteiro, lê, conhece, compreende. (você lê com tudo aquilo que você é).
 
     A leitura é o processo de interação do indivíduo com seu meio. Pela leitura eu conheço a voz do outro, com a qual construo meu aprendizado e minha linguagem. E isso é mais do que somar elementos. É uma interação, pois o que foi somado, juntado, modifica o que já existia, e nada mais é o que era antes.
 
     É aí que reside o maravilhoso: a leitura transforma.
 
 
    
    Agora a história.  
Ela se passa no interior de um estado brasileiro, por volta dos anos 70, época em que
usar  recursos áudio visuais numa escola sem recurso algum era pura ficção científica.
 
                                                                                          .-.-.-.-.-.-.

A professora conseguiu o seu primeiro emprego num curso de alfabetização de adultos e, empolgada, decidiu que, além de alfabetizar, enriqueceria aquelas mentes com  narrativas que seriam lidas para os alunos semanalmente.
 
Foi num desses encontros de leitura que apareceu o Mar. Imenso, imponente, lindo, mas que não alcançou nenhum ouvinte. E a professora, surpresa, descobriu que nenhum daqueles adultos tinha visto um dia aquelas águas que ela mostrou nas gravuras, tentou descrever de mil maneiras sem sucesso.
 
A leitura, então, foi interrompida, mas não a preocupação da professora que voltou, na aula seguinte, munida de um Atlas Geográfico, na esperança de que, assim, pudesse dar aos alunos uma ideia do que era o Mar.  Mas aqueles traços planos e abstratos só fizeram confundir mais os alunos.
 
Sem desistir, a jovem professora levou fotos de outros livros, de seu arquivo pessoal, mas o alcance das fotos estava longe de representar o Mar. E os alunos ainda a olhavam descrentes.
 
Então, ela fez mais: levou consigo um Globo Terrestre que não era iluminado, mas girava sobre seu eixo, dando uma ideia melhor do que era chão, do que era água. E, ingênua, tentou mostrar a eles onde estavam, onde viviam, em que ponto daquela bola ficava a pequena cidade; e que todo aquele azul era oceano, era Mar.
 
Ainda não foi dessa vez que o Mar foi compreendido.
 
Nesse dia, quando a professora se preparava para sair e juntava seu material sobre a mesa, chegou uma aluna, de cabelos longos e escuros, rosto jovem, pés castigados, com certa pressa de pegar, quem sabe, um final de aula. Sem ver os colegas, ela parou, olhou para a mesa da professora e revelou seu desapontamento.    
 
- Ah! Logo hoje que eu faltei teve bingo?   - e foi embora.
 
A professora, visivelmente cansada, ficou diante da mesa, abraçada aos seus livros. Olhou para o Globo Terrestre perfeitamente associado ao jogo cuja roda gira e que, girando, construiu sentidos para a sua aluna. Roda palpável que a aluna viu, conheceu, era capaz de entender.
 
E só então (depois de anos de estudo), a professora vivenciou o que é Leitura. Não apenas de palavras, mas de mundo.
 
“Processo de interação com seu meio”. ...”que envolve componentes sensoriais, culturais...”,  você lê com tudo aquilo que você é”.
 
Sim. Você lê com tudo aquilo que você é, com tudo aquilo que já viu e conheceu um dia. Mas, às vezes, os limites do que somos são tão estreitos, que não cabe a palavra Mar.  
 
P.S. meses depois, a professora organizou um passeio com os alunos e todos  puderam LER o Mar,  tão imenso que antes não cabia!  
 
 




[1] MARTINS, Maria Helena. O que é leitura. São Paulo: Brasiliense, 1984.

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Capas 4 - O antes e o agora - Acorda! que a corda é bamba

      Qual o peso de uma capa para o sucesso de um livro? Qual a probabilidade de um leitor ser atraído ou não por um desenho, uma cor, uma ideia visual?
   O artista lê o texto e o interpreta. Ao interpretá-lo, dá a ele sua versão - sua leitura - e define traços e cores, se apossando do livro: enquanto leitor, enquanto artista criativo e criador.
   Mas outras coisas têm aí seu peso: o tema, a época - e paro por aqui porque a lista é extensa, mas são essas as questões que mais explicam o que vou contar.
   A primeira capa do livro Acorda! que a corda é bamba é do talentoso João Baptista da Costa Aguiar, que soube, com sua arte, dar ao livro o impacto que ele certamente provocava. A imagem desfocada de um grito, uma boca aberta simulando certo desespero em avisar algo importante e urgente.
Era o ano de 1998 e a temática das drogas começava a ser discutida um pouco mais abertamente  nas escolas. Portanto, o tema - drogas - naquela época - há mais de 15 anos -, exigia um alerta forte e legítimo, tal qual o João Baptista o concebeu. Assim foi feito e aprovado.
   Porém, parte do público, por uma série de razões também justificáveis, ainda temia que a questão fosse mal interpretada e sugeriu ao editor que a capa fosse "atenuada", sob pena de não poder adotá-lo. Como "atenuar" a interpretação de um capista? Se esta foi sua leitura e sensação, assim devia ser mantido. E assim foi feito. Mas, visando não afugentar leitores, a editora concordou em colocar uma tarja lateral que explicasse o grito: "um grito de alerta para as drogas". Tudo, assim, parecia resolvido.  Sim, é um grito - não de terror, não de horror ou pavor -, mas de alerta...  Nada além disso.
   Ah! querer burlar verdades, iludir o leitor jamais desavisado, não é tática que dê bons frutos. Afinal, quantos leitores não viam o assunto com um temor verdadeiro Mas a medida funcionou, já que o que o livro pretendia era conscientizar, discutir, de fato, alertar. E, com esta primeira capa - que muitos começaram a entender e a aprovar - o livro foi seguindo seu caminho até encontrar seu espaço.
   Anos depois, mais precisamente em 2005, durante a reformulação de catálogo e de uma série de títulos da editora Aquariana/DeLeitura, a artista Niky Venâncio criou uma nova capa. Na sua leitura, o grito dispensa a boca e se comunica através de uma explosão de cor. Um tom vermelho e uma fonte não padronizada "gritam" sobre um amarelo vivo, dando o mesmo necessário aviso: Acorda! que a corda é bamba. No subtítulo, a explicação mantida: sim, estamos falando sobre drogas.
   Pois o alerta continua sendo dado - por todos os meios e formas permitidos ,- o tema continua impactante, sério, importante... sempre um necessário grito!